A fragmented metallic globe resting on a conference table, with industrial and circuit patterns engraved on its pieces under cold overhead lighting.

O fim da globalização ingênua: economia, poder e transição estratégica no Ocidente

O discurso de Marco Rubio em Munique como formalização pública do esgotamento do paradigma pós-Guerra Fria

Munique e o fim da ingenuidade estratégica

A tentação imediata foi ler o discurso de Marco Rubio na Conferência de Segurança de Munique como um

nocaute retórico.

Uma intervenção contundente, disruptiva, até desconfortável para parte do público europeu.

Mas o ponto não é o impacto cênico.

A pergunta relevante é outra: estamos diante de um fato que modifica a situação global ou da formalização pública de uma mudança que já estava em curso?

A resposta exige separar acontecimento de estrutura.

Não foi ruptura.

Foi reconhecimento.

O sistema internacional não mudou no dia do discurso.

A competição entre grandes potências já era um fato.

A fragmentação das cadeias de suprimento já estava em andamento.

A rivalidade tecnológica com a China já havia deixado de ser implícita.

O que mudou foi a linguagem legítima do poder.

Durante três décadas, a globalização foi apresentada como um processo inevitável e, em essência, positivo.

A abertura irrestrita, a deslocalização produtiva e o multilateralismo expansivo eram justificados como racionalidade histórica.

Em Munique, afirmou-se o contrário: que muitas dessas decisões enfraqueceram a base industrial, a autonomia energética e a coesão interna do Ocidente. Que a interdependência sem reciprocidade não foi modernização, mas vulnerabilidade.

Essa inflexão não cria uma nova realidade, mas a declara sem ambiguidades.

E quando um marco deixa de ser implícito e se torna explícito, políticas antes marginais passam a ser defensáveis.

Economia como segurança

Um dos deslocamentos mais significativos do discurso foi conceitual.

A economia deixou de ser apresentada como esfera neutra de eficiência e passou a ser tratada como componente central da segurança nacional.

Cadeias de suprimento críticas.

Minerais estratégicos.

Infraestrutura energética.

Capacidade industrial.

Automação e inteligência artificial.

Não como temas setoriais, mas como variáveis geopolíticas.

Isso implica algo mais profundo que protecionismo conjuntural.

Implica que a interdependência já não será avaliada apenas por custos, mas por confiabilidade política.

Não estamos diante do fim do comércio global.

Estamos diante do fim da globalização ingênua.

O verdadeiro movimento: coesão interna

Há uma dimensão menos visível e provavelmente mais relevante.

O discurso não foi apenas um sinal para a Europa ou para a China.

Foi também uma operação de reorganização interna.

Quando uma potência percebe erosão relativa — industrial, social ou institucional — precisa reconstruir coesão antes de projetar liderança externa.

Indústria, soberania, fronteiras, identidade: esses conceitos reaparecem não como nostalgia cultural, mas como tentativa de restaurar bases estruturais.

A competição externa funciona, assim, como instrumento de ordenamento interno.

Sem coesão, não há estratégia sustentada.

Estamos diante de uma nova ordem?

Não.

Estamos diante de uma transição.

A ordem internacional liberal não desaparece de um dia para o outro.

Mas se transforma.

A universalidade cede espaço à seletividade.

A abertura automática é substituída por filtros estratégicos.

A cooperação multilateral passa a ser condicionada a resultados efetivos.

A interdependência é redefinida sob critérios de risco.

Esse processo não começou em Munique.

Mas ali foi assumido como doutrina defensável no coração do eixo transatlântico.

Isso modifica o clima estratégico.

Porque reduz o custo político de decisões mais duras: subsídios industriais, controle tecnológico, alianças energéticas seletivas, pressão regulatória coordenada.

A América Latina em um cenário menos tolerante

Se essa abordagem se consolidar, o hemisfério ocidental deixa de ser secundário.

Não por ideologia, mas por profundidade estratégica.

Quando a competição é redefinida em termos de blocos funcionais, a ambiguidade se torna onerosa.

Os países que não puderem garantir estabilidade institucional, segurança jurídica, controle territorial e previsibilidade regulatória serão considerados riscos sistêmicos.

Os que puderem se tornarão ativos valiosos.

Não porque a geografia mude.

Mas porque o limiar de tolerância estratégica muda.

O que realmente ocorreu em Munique

Não foi um nocaute.

Foi a aceitação pública de que o paradigma pós-Guerra Fria se esgotou.

Que a política internacional já não pode ser administrada como se o conflito ideológico tivesse desaparecido.

Que infraestrutura, energia e tecnologia são instrumentos de poder, não meros setores econômicos.

Que a coesão interna é condição prévia para liderança externa.

O mundo não mudou naquele dia.

Mas a linguagem que organiza a ação estratégica mudou.

E quando a linguagem muda, mudam também as decisões que se tornam politicamente possíveis.

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