Da França à Tríplice Fronteira, redes ideológicas, criminosas e terroristas revelam uma continuidade que o Ocidente costuma perceber tarde.
Estudos realizados pelo instituto francês IFOP, uma empresa local de pesquisas fundada em 1938, publicados em abril de 2026, revelam que 46% dos muçulmanos que vivem na França, incluindo os nascidos no país, acreditam que a lei islâmica, a sharia, deveria ser aplicada em países não muçulmanos.
E, por enquanto, a França não é um deles.
Portanto, deveria ser considerada incluída nessa pretensão.
Os dados indicam, além disso, que o apoio a essa opinião é acentuadamente maior entre os jovens.
Veja-se que, entre os 15 e 24 anos, esse percentual sobe para 59%.
Esse segmento entende que a sharia deve prevalecer sobre a lei francesa em aspectos como o casamento, a herança ou o abate ritual, que, diga-se de passagem, é permitido na França.
42% dos jovens simpatizam, total ou parcialmente, com o islamismo, isto é, o movimento que busca o controle político para impor a lei islâmica.
Projetado para o conjunto, o número cai para 38%.
Por fim, 60% dos muçulmanos na França votam na esquerda.
Isso pode parecer contraditório, porque as posições da esquerda sobre o feminismo e a chamada “agenda de direitos” entram em choque frontal com os postulados islâmicos.
No entanto, talvez não seja tão contraditório, porque a permissividade gerada pela esquerda lhes permitiu usufruir dos benefícios do Estado de bem-estar sem muita contrapartida.
Podemos imaginar qual poderia ser o destino desses lobbies tão caros ao socialismo sob a sharia.
O analista italiano Alberto de Filippis contextualiza o relatório do IFOP com o atual conflito no Oriente Médio.
A queda de Maduro, diz ele, não desativou as redes que o Irã e o Hezbollah construíram ao longo de décadas.
Fragmentou-as, sim, mas, paradoxalmente, obrigou-as a se esconder, e isso as torna mais difíceis de detectar.
Desde o advento de Chávez, a Venezuela abriu suas portas ao Irã.
Desde 1999, o regime entregou mais de dez mil passaportes a pessoas provenientes do Oriente Médio, diz de Filippis, e provavelmente não foi o único país da Ibero-América a conceder tais benefícios.
Assim, para o Irã e sua filial Hezbollah, Partido de Deus, a Venezuela havia se transformado em fornecedora de falsas identidades.
E numa base ideal para lavar os recursos produzidos pelo narcotráfico.
Sem prejuízo disso, existe um ponto onde o Hezbollah se instalou e opera impunemente: a Tríplice Fronteira entre Argentina, Paraguai e Brasil.
Embora se possa presumir que sua presença ali não exclua outros locais da região.
Uma análise publicada pela Universidade de La Plata trata do tema.
Trata-se de um documento da argentina Belén Geraldine Deriu, mestre em Inteligência Estratégica Nacional, que conclui:
“o Hezbollah na Tríplice Fronteira […] é uma subsidiária do Hezbollah libanês no Cone Sul […] sua principal tarefa e objetivo é ser geradora de recursos financeiros [e] está mais vinculada ao crime do que ao terrorismo propriamente dito”.
Claro que o terrorismo é o instrumento dentro de um pacote, e quem se ocupa do financiamento é tão terrorista quanto quem coloca as bombas.
Segundo o portal france24.com, no fim de março de 2026 um menor foi detido quando tentava colocar um artefato explosivo diante do Bank of America em Paris.
O indivíduo confessou que havia sido contratado pelo aplicativo de mensagens Snapchat e recebido 600 euros como pagamento por seus serviços.
O Snapchat possui uma facilidade que faz desaparecer em poucos segundos as mensagens recebidas sem deixar rastro.
Um mecanismo muito mais sofisticado que o da fita gravada que, em “Missão Impossível”, se autodestruía em cinco segundos e, além disso, ao alcance de todos.
O caso foi encaminhado à Promotoria Antiterrorista.
Em 2018, a polícia brasileira deteve onze cidadãos desse país vinculados ao Isis, que recrutavam crianças para ataques terroristas.
Em 2017, o porta-voz do UNICEF Christophe Boulierac revelou que “nos últimos três anos, 117 crianças foram empregadas [pelo grupo terrorista nigeriano Boko Haram] para perpetrar ataques com bomba”, das quais cerca de “80% são meninas”.
A página euaa.europa.eu discrimina os dois grupos em que Boko Haram se dividiu em 2016.
JAS: ataca muçulmanos que não o apoiam, e cristãos, infiéis.
ISIS-WA: apenas cristãos e pessoas que não se regem pela lei islâmica.
Embora essas categorias suponham apenas generalidades.
Além disso, há outro grupo étnico, os fulani, 98% dos quais são muçulmanos, responsáveis pela morte de 55% dos 16.700 cristãos massacrados entre 2019 e 2023, segundo informa o Observatório para a Liberdade Religiosa na África.
Em 2024, Fredrik Hallström, chefe do Serviço de Segurança Sueco, declarou à CNN que as gangues criminosas Foxtrot e Rumba, que têm suas bases de operação no país nórdico, atuam sob as ordens do Irã em ataques contra alvos israelenses na Europa.
Como se observa, esse terrorismo tem variantes e faces distintas, mas um substrato básico, tema que merece tratamento à parte.
Islamismo político.
Redes transnacionais.
Segurança ocidental.
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