Quando a burocracia tenta comprar o futuro com reflexos do passado.
O Estado diante do grande piscar tecnológico
Por Nelson Jorge Mosco Castellano
O maior perigo da Quarta Revolução Tecnológica não é que as máquinas adquiram a capacidade de pensar, mas que os governos insistam em não fazê-lo.
Ao longo da história, a humanidade atravessou três grandes transformações em sua forma de interagir com a matéria e a energia.
A primeira nos tirou das árvores e nos uniu ao arado; a segunda substituiu o músculo humano pelo pistão a vapor; a terceira digitalizou o fluxo da informação.
Em cada um desses saltos, o intervalo de adaptação foi medido em gerações. Havia tempo para que os velhos costumes morressem pacificamente com os idosos e os novos fossem adotados pelos jovens.
Mas hoje enfrentamos aquilo que gosto de chamar de O Grande Piscar.
A velocidade da mudança atual é de caráter exponencial, enquanto a mente humana, e muito especialmente a mente burocrática, é estritamente linear.
Quando um governo decide dilapidar seus recursos no limiar desta nova era, não comete apenas um erro de cálculo econômico; comete um anacronismo evolutivo.
E no jogo da sobrevivência, o anacronismo é sempre sinônimo de extinção.
I. A inércia do aço contra a fluidez do silício
Imaginemos um governante da antiga Roma que, ao intuir que as comunicações são o futuro do Império, decidisse investir todo o ouro do tesouro na compra dos melhores e mais velozes cavalos de corrida da península itálica.
O esforço seria colossal, o gasto astronômico e o orgulho patriótico imenso.
No entanto, apenas algumas décadas depois, com a chegada do telégrafo — ou mesmo de um sistema viário pavimentado de outra maneira —, esses cavalos caríssimos não seriam mais do que um glorioso e custoso monte de alfafa consumida.
É exatamente isso que acontece quando o Estado moderno insiste em financiar megaprojetos tecnológicos rígidos.
A burocracia estatal exige, por sua própria natureza — licitações, comissões, debates parlamentares e assinaturas ministeriais —, um tempo que o progresso tecnológico já não concede.
Quando o monumental sistema informático de uma entidade pública é finalmente aprovado, desenhado e instalado depois de cinco anos de trâmites, a tecnologia subjacente já mudou três vezes.
O governo comprou, a preço de ouro, o cavalo mais rápido do ano passado.
Gastar os recursos do contribuinte em estruturas fechadas e proprietárias é construir castelos de areia diante de uma maré que sobe a uma velocidade vertiginosa.
A única estratégia financeira sensata na era do silício é a modularidade: sistemas pequenos, interconectados e suficientemente flexíveis para serem descartados ou atualizados sem que isso signifique a falência da república.
II. O verdadeiro combustível do amanhã
Existe uma cegueira generalizada que confunde os templos com a fé.
Muitos governos acreditam que participar da revolução tecnológica consiste em encher escritórios com computadores de última geração ou subsidiar indústrias que prometem manter os empregos do século XX mediante o uso de fórceps fiscais.
Esse é um desperdício trágico. O verdadeiro campo de batalha não se mede em gigawatts nem em toneladas de servidores; mede-se no interior dos crânios dos cidadãos.
Se um governo gasta seus recursos sustentando artificialmente uma estrutura laboral obsoleta por medo do deslocamento provocado pela automação, está cometendo uma dupla falta.
Primeiro, esgota os fundos que deveriam ser usados para preparar as novas gerações nas Artes Liberais da era moderna: pensamento crítico, adaptabilidade e capacidade de programar as máquinas em vez de competir contra elas. Segundo, acostuma o cidadão a uma falsa sensação de segurança que desaparecerá ao primeiro choque da realidade internacional.
A cibernética nos ensinou que um sistema que não se adapta morre.
Se o Estado utiliza o dinheiro público para blindar a sociedade contra a mudança, em vez de dotá-la da agilidade necessária para surfá-la, terá criado uma população de dependentes em um mundo que recompensa apenas os audazes.
III. O espelho da desconfiança
Há um terceiro fator, talvez o mais sutil e perigoso de todos.
O cidadão da Quarta Revolução é um indivíduo hiperconectado.
Dispõe no bolso de uma capacidade de computação que os cientistas do Projeto Manhattan teriam invejado.
Vê, compara e analisa em tempo real.
Quando esse cidadão otimiza seus recursos, adota novas ferramentas e transforma seu pequeno negócio para sobreviver em um mercado hipercompetitivo, volta o olhar para o Estado.
E o que encontra?
Encontra um aparelho que desperdiça o dinheiro que lhe custou tanto obter, utilizando-o para manter vícios oitocentistas, duplicações de funções e balcões burocráticos que já não têm razão de existir.
O resultado é uma ruptura ética.
Nenhum sistema político pode sobreviver se a eficiência dos governados avança à velocidade da luz enquanto a eficiência dos governantes retrocede à velocidade da lama.
A perda de confiança institucional é o prelúdio da anarquia ou do totalitarismo.
O amanhã não espera pelos comitês
A solução não é que o Estado se transforme em um cientista louco tentando adivinhar qual será a próxima grande invenção para financiá-la.
A história demonstra que os governos são péssimos em escolher vencedores no livre mercado das ideias.
O papel da autoridade nesta mudança de época deve ser o de um sábio jardineiro, não o de um construtor de árvores artificiais de concreto.
Primeiro, preparar o terreno: criar regras do jogo claras, estáveis e previsíveis. Um marco legal robusto e uma estrita disciplina fiscal são o melhor convite para que o gênio criador da espécie humana floresça sem medo.
Segundo, retirar as ervas daninhas: desmontar as regulações obsoletas que impedem a experimentação e a descentralização. Se a tecnologia permite hoje uma auditoria cidadã direta e transparente, o Estado deve reduzir seu aparelho supervisor e permitir que a luz entre nas contas públicas.
A Quarta Revolução Tecnológica nos oferece uma oportunidade sem precedentes para libertar a humanidade das tarefas mais tediosas e repetitivas da existência.
Mas se os governos insistirem em dilapidar a riqueza das nações tentando comprar o futuro com as ferramentas do passado, descobriremos, tarde demais, que o amanhã nos deixou para trás.
E o universo, como bem sabemos, não tem nenhuma simpatia pelos retardatários.
Velocidade tecnológica e inércia estatal.
Investimento público rígido frente a sistemas modulares.
Confiança cidadã diante de governos obsoletos.
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