A mudança de posição do governo sobre os fundos de previdência revela os limites das propostas ideológicas quando confrontadas com as exigências práticas do financiamento do Estado e da estabilidade econômica.
Quando a realidade econômica supera o dogma ideológico
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
É preciso dizer isso de forma clara e sem rodeios: mais uma vez, a dura e implacável realidade da economia global deu um tapa histórico no velho e conhecido catecismo ideológico.
Quiseram nos vender a ideia de que a solução mágica era a centralização estatal, a estatização das AFAP, o fim das comissões privadas e o controle absoluto do dinheiro dos trabalhadores a partir de um gabinete obscuro.
Tudo parecia muito bonito, muito puro e digno de uma reunião partidária, mas era absolutamente impraticável.
E sabem por quê?
Porque as leis da economia não acreditam em dogmas.
Em menos de quinze dias, o ministro da Economia teve de mudar completamente sua posição.
E por que recuou tão rapidamente?
Muito simples: porque o Estado uruguaio precisa de quem compre seus títulos da dívida pública.
São necessários compradores.
Enquanto comunistas e socialistas permanecem fechados em sua bolha ideológica discutindo teorias do século XIX, esquecem que as contas públicas precisam ser pagas no fim de cada mês.
Os ideólogos queriam colocar as mãos na poupança da população para resolver seus problemas políticos, mas esbarraram em uma verdade evidente: se você desmonta o sistema, afasta os investimentos e pretende financiar o déficit com discursos em vez de pesos e dólares reais, acaba sozinho, sem recursos e com o Estado em situação insustentável.
Por isso, agora, as AFAP deixaram de ser o inimigo público número um.
De repente, é preciso garantir sua independência e até permitir que invistam no exterior.
Que milagre. Perceberam, ainda que tardiamente, que a poupança dos trabalhadores não é um caixa político, mas um patrimônio que necessita de rentabilidade e segurança, e não de palavras de ordem partidárias.
O problema é que passaram tanto tempo falando apenas entre si — naquele famoso diálogo endogâmico em que se aplaudem slogans e se recompensa a ignorância econômica — que se esqueceram de que existe um mundo globalizado além de seu próprio círculo.
A esquerda dogmática vive em uma realidade paralela.
Debate abstrações ideológicas enquanto o país real precisa de financiamento, previsibilidade e, acima de tudo, bom senso. Tentaram mais uma vez e, mais uma vez, fracassaram ao tentar governar o país fabricando solidariedade com o dinheiro dos trabalhadores.
Astori já não está aqui para repreendê-los, nem Vázquez para censurá-los pela situação em que deixaram o país antes de seu segundo governo.
Peguem mais leve com o catecismo ideológico.
Deixem de olhar para o próprio umbigo partidário e passem a olhar para a realidade.
Se realmente querem falar de liberdade e soberania, precisam tornar-se independentes do sistema financeiro.
Caso contrário, endividados até o pescoço, a realidade sempre prevalecerá sobre a redistribuição do dinheiro daqueles que contribuem para sustentar o país.
O Uruguai não será salvo por slogans empoeirados.
Será salvo com trabalho, com respeito à liberdade das pessoas e com a compreensão de que a economia não é governada pelos caprichos do dogma, mas pelas leis inexoráveis da própria vida, lições que outros já aprenderam à custa de incontáveis vítimas.
Fundos de previdência e financiamento
Dogma versus realidade econômica
Liberdade e poupança
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