Valcorba, ou a condenação que a esquerda pronuncia
Quando o Estado gasta o que não tem e paga sem restrições, acaba competindo com o setor privado por crédito (efeito crowding-out), o que trava o investimento privado, o emprego e reproduz as condições de pobreza.
Mas então, por que os eleitores se inclinam majoritariamente por essas propostas de esquerda?
E aqui não estamos sozinhos.
Assim como em vários países latino-americanos, agora também Nova York está virando para o socialismo.
Deveríamos dizer, parafraseando o dito popular: na velhice democrática liberal e capitalista, os norte-americanos avançam diretamente para a sua antípoda, conduzidos pelo desencanto popular com um sistema prebendário que reduziu as oportunidades de ascensão econômica.
O crescimento do Estado como fim político
Existe um fenômeno conhecido na ciência política como “o agigantamento do Estado” por razões de controle ou clientelismo.
Neste caso, diretamente por clientelismo.
Ou, mais precisamente, porque foi criado um público-alvo que sente que o assistencialismo, o subsídio e a repartição vão resolver suas angústias existenciais.
Burocracia expansiva
Para resolver aqui e ali um público empobrecido pelo avanço do Estado e pela multiplicação do emprego público e do gasto, essas pessoas acreditam que é preciso pisar no acelerador.
Criam-se ministérios e organismos para atender novas “agendas sociais”, estruturas ineficientes que consomem cada vez mais recursos, o que torna impossível que a “benevolência” socialista chegue ao beneficiário final.
A desestruturação orçamentária pública faz com que se gaste mais, por mais ordenadores abusivos, sem respeitar as restrições orçamentárias, com a ineficácia de organismos sem recursos e o aprofundamento do déficit.
Dependência do Estado
Ao ampliar a base de pessoas que dependem diretamente de uma transferência estatal (empregados, beneficiados, subsidiados), o governo garante uma base eleitoral fiel, ainda que isso seja fiscalmente insustentável no longo prazo.
E aprofunda a extração de recursos que poderiam ir para a única solução universal comprovada: poupança, investimento, aumento de capital com mais empreendedorismo, gerando oportunidades reais para desempregados, subempregados e pobres ou indigentes em geral, com vontade de superar sua condição precária.
“A ilusão fiscal” e a falta de incentivos
A gestão pública de corte intervencionista ignora a Curva de Laffer.
Aumentar impostos em excesso, acima da capacidade contributiva, termina arrecadando menos porque desestimula o trabalho e destrói recursos de poupança e investimento.
Justificativa social
Pressupõe-se que qualquer gasto está justificado se tiver um nome “nobre” (educação, saúde, pobreza), mesmo que a execução seja péssima, dilapide recursos escassos, piore os indicadores sociais e provoque uma inflação de dívida a ser financiada de forma obscena contra a posteridade.
O triunfo da utopia sobre o orçamento
Oscar Wilde dizia que um mapa do mundo que não inclua “utopia” não vale a pena nem consultar.
Mas aplicar integralmente o programa utópico da esquerda, que justamente se tenta desarticular, é como tentar pintar um mural impressionista usando triângulos.
A paradoxa está à vista de qualquer um que não tenha um balde mental: aposta numa redistribuição de riqueza tão absoluta que, no fim, ninguém terá o suficiente para ser considerado “rico”, eliminando assim, entre outras coisas importantes, a única ocupação interessante da classe alta: ser o alvo das críticas nos jantares de caridade.
E, claro, aponta justamente para os únicos que se animaram a restringir gasto pessoal para investir numa empresa e dar trabalho a quem não faz, ou não pode fazer, esse processo.
O resultado é que o Ministério da Economia deixa de ser um escritório de números para virar um departamento de relatos épicos, onde o déficit fiscal é tratado não como um problema, mas como uma licença artística.
A ditadura da virtude coletiva
Para a esquerda, o autêntico revolucionário não deve exigir que cada um viva como deseja, mas exigir que os outros vivam como eles querem.
Parece que nem levando o Maduro para “amadurecer” nos EUA os americanos perceberam isso.
E pior, nem em Nova York se ouve o inglês cubanizado, que conta as peripécias de atravessar de balsa arriscando a vida para escapar do que agora se votou.
A aplicação
Se o programa socialista (suavizado no início) fosse aplicado 100%, a sociedade ficaria tão “perfeita”, tão obrigatoriamente “solidária” e tão “equânime” na restrição do gasto que o tédio seria a principal causa de mortalidade.
O choque é que, sem a “necessária” desigualdade para alimentar o ressentimento ou a ambição, os socializados perderiam seu esporte nacional: a queixa.
Um país onde tudo funciona segundo o “programa” da esquerda é um país onde o engenho morre por falta de uso.
A ciência versus o estilo
Valcorba, nosso vice-ministro da Economia, atua aqui como o crítico literário que diz que a trama é inverossímil.
Um autêntico esquerdista responderia que “a realidade é um detalhe sem importância”.
A ironia é que, ao tentar financiar o infinito com o finito (o pecado original de qualquer programa integral de esquerda que se preze), o eleitor deveria ter entendido que o dinheiro tem o mau hábito de ser profundamente conservador.
Ele tende a ir dormir em outros países quando se sente observado e engessado, ou quando percebe por perto a mão do arrecadador.
A cena final é que o programa, se aplicado integralmente, se converteria numa obra-prima da literatura de ficção.
Seria esteticamente impecável no papel, mas “insuportável de ler na vida real”.
Em resumo, uma vitória pírrica
Se fosse aplicado tudo o que Valcorba diz que não dá para fazer, a esquerda conseguiria o que nenhum partido conseguiu: o fracasso por excesso de sucesso de um relato que matou o factual.
Teria sido criado um sistema tão meticulosamente desenhado para o “bem-estar” que o indivíduo desapareceria sob o peso da benevolência estatal.
Como diria Oscar Wilde: “Só há duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se quer, e a outra é conseguir e perceber para que serve.”
