Offshore support vessels and maritime logistics infrastructure at the Port of Montevideo overlooking the South Atlantic.

Malvinas, petróleo e a oportunidade estratégica do Uruguai


A escalada argentina em torno de Sea Lion pode abrir uma fórmula de convivência econômica e, com ela, um novo espaço logístico para o Uruguai no Atlântico Sul.

O endurecimento anunciado por Javier Milei diante da exploração petrolífera de Sea Lion foi interpretado como uma nova escalada do conflito pelas Ilhas Malvinas.
É.
Mas talvez seja apenas a primeira metade de uma jogada bastante mais complexa.
Milei obteve um resultado político interno imediato ao assumir uma posição contundente diante da exploração de recursos que a Argentina considera próprios.
Ao mesmo tempo, elevou consideravelmente o custo potencial para a Navitas Petroleum, a Rockhopper Exploration e as empresas que participem de sua cadeia de financiamento, seguros, fornecimento e serviços.
No entanto, há um problema.
Sea Lion já é grande demais e está avançado demais para simplesmente desaparecer como consequência de uma ameaça.
O projeto alcançou sua decisão final de investimento, tem financiamento e contratos em andamento e prevê começar a produzir petróleo em 2028.
Navitas e Rockhopper já responderam que seguirão adiante.
Temos, então, um aparente beco sem saída.
A Argentina não pode reconhecer as licenças concedidas pelas autoridades das ilhas sem afetar sua reivindicação de soberania.
O Reino Unido não aceitará a soberania argentina como condição para explorar o recurso.
Os ilhéus mantêm sua posição.
E as empresas dificilmente abandonarão um investimento dessa magnitude.
Quando ninguém pode recuar politicamente e existe um incentivo econômico dessa dimensão, a pergunta deixa de ser quem tem razão e passa a ser qual arquitetura permite administrar o conflito.

A SAÍDA ECONÔMICA

Existe uma possibilidade que recebeu surpreendentemente pouca atenção.
Incorporar economicamente a Argentina à exploração sem resolver previamente a disputa de soberania.
A fórmula poderia assumir diferentes formas.
Participação em determinados benefícios, contratação de serviços argentinos, algum mecanismo de desenvolvimento conjunto ou até mesmo participação empresarial da YPF.
Esta última possibilidade é particularmente interessante.
Uma participação da YPF permitiria à Argentina sustentar que deixou de estar excluída da exploração de recursos que considera próprios, sem necessidade de que nenhuma das partes modificasse formalmente sua posição sobre soberania.
Nem sequer seria uma ideia completamente nova.
Argentina e Reino Unido já assinaram, em 1995, uma declaração conjunta destinada a permitir cooperação em atividades petrolíferas offshore, preservando expressamente suas respectivas posições sobre soberania.
Aquele entendimento acabou fracassando.
Mas deixou estabelecido um precedente fundamental: é possível negociar petróleo sem resolver primeiro Malvinas.
Sea Lion oferece agora um incentivo econômico muito maior para voltar a imaginar alguma arquitetura semelhante.
Visto dessa forma, a dureza de Milei poderia ter uma segunda leitura.
Não necessariamente impedir a exploração, mas aumentar o custo de excluir a Argentina até tornar mais conveniente incorporá-la.

DEPOIS DO ACORDO VEM A LOGÍSTICA

Se alguma fórmula de convivência econômica acabar surgindo, começará imediatamente outra discussão.
Quem prestará, durante as próximas décadas, os serviços necessários para essa nova indústria petrolífera do Atlântico Sul?
Uma exploração offshore precisa de muito mais do que plataformas.
Precisa de portos, embarcações de apoio, combustível, armazenamento, reparos, engenharia, transporte aéreo, telecomunicações, abastecimento, serviços ambientais, capacitação e resposta a emergências.
Em torno de uma exploração que pode durar trinta anos acaba se desenvolvendo uma indústria.
Milei parece ter compreendido isso.
Por isso vinculou sua estratégia sobre Malvinas ao desenvolvimento de capacidades na Terra do Fogo e à aspiração argentina de fortalecer sua posição como polo logístico do Atlântico Sul.
E é aí que surge uma pergunta que o Uruguai deveria começar a fazer a si mesmo.

E O URUGUAI?

O Uruguai não tem nenhuma necessidade de intervir na disputa de soberania.
Também não deveria pretender substituir a Argentina.
Mas tem interesses perfeitamente legítimos na economia do Atlântico Sul.
Além disso, uma operação industrial destinada a funcionar durante décadas dificilmente desejará depender absolutamente de um único porto, uma única rota ou uma única jurisdição.
Uma eventual incorporação argentina a Sea Lion, portanto, não eliminaria necessariamente a oportunidade uruguaia.
Poderia torná-la mais clara.
A Argentina poderia se tornar uma plataforma fundamental para a exploração e o Uruguai funcionar como plataforma complementar, proporcionando diversificação logística e operacional.
Nosso país possui estabilidade institucional, segurança jurídica, infraestrutura portuária, aeroporto internacional, serviços marítimos e profissionais e uma posição geográfica privilegiada.
A oportunidade tampouco termina nos portos.
Pode envolver indústria, reparação naval, engenharia, tecnologia, logística, transporte, capacitação e serviços especializados.
E necessariamente coloca outra questão que o Uruguai costuma esquecer quando pensa no mar: as capacidades do Estado.
Uma atividade marítima crescente exige busca e salvamento, vigilância, comunicações, resposta ambiental, coordenação aérea e proteção de infraestrutura crítica.
Também a Marinha e a Força Aérea fazem parte de uma estratégia econômica séria sobre o mar.

ANTES DO PRIMEIRO BARRIL

Nada garante que a atual escalada termine em negociação.
Mas a economia introduz incentivos onde a política encontra limites.
Sea Lion não elimina o conflito de soberania.
Pode, no entanto, obrigar a encontrar uma maneira de conviver com ele.
E, se isso ocorrer, o Atlântico Sul começará a adquirir uma dimensão econômica diferente.
A Argentina já anunciou que pretende ocupar um lugar central nela.
O Uruguai não precisa disputá-lo.
Precisa decidir se quer ocupar o seu.
Porque as grandes oportunidades estratégicas raramente começam quando aparece o primeiro contrato.
Começam alguns anos antes, quando ainda parecem apenas uma hipótese.

Sea Lion e Malvinas
Logística do Atlântico Sul
Oportunidade estratégica uruguaia

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