Quando a esquerda decidiu confiscar o futuro do trabalhador e da pequena empresa
O GRANDE SAQUE SILENCIOSO
Quando a esquerda decidiu confiscar o futuro do trabalhador e da pequena empresa
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
Os efeitos perversos, no âmbito econômico e social, das políticas de esquerda perduram e são difíceis de reverter, em razão de seu fundamentalismo redistributivo selvagem e da pressão dos corporativismos que incentiva, especialmente a partir das cúpulas sindicais comunistas.
Talvez o mais perverso em nosso país, desde que assumiram o governo em 2005, e antes na Intendência de Montevidéu, seja a explosão fiscal que busca desesperadamente extrair recursos da sociedade, sem medir o dano à sustentabilidade da produtividade empresarial e, particularmente, ao trabalho.
Esse impacto é mortalmente destrutivo do tecido social, particularmente nos setores econômicos médio e baixo da sociedade, já que sofrem diretamente a deterioração do poder aquisitivo e a ruptura da escada de ascensão social.
Em uma sociedade com um mercado produtivo reduzido de oferta e demanda, retirar os recursos que sustentam seu equilíbrio equivale a matá-la.
Isso aconteceu, e acontece, em todas aquelas ordens econômicas nas quais foram requisitadas as próprias bases do emprego, da formação para ele e, por consequência, freada a produção.
Reverter uma decisão fiscal que distribui recursos como dádivas e subsídios, prebendas e sinecuras, cargos públicos multiplicados e práticas corruptas, é extremamente difícil para quem queira voltar ao eixo racional sustentável da economia humana.
Há promessas que são redigidas com tinta de esperança, mas executadas com a fria precisão de uma lâmina de barbear.
Sob o manto da “equidade distributiva” e da modernidade tecnocrática, a reforma tributária liderada por Danilo Astori foi vendida como um ato de estrita justiça social.
A narrativa oficial era sedutora: um imposto sobre a renda que finalmente faria pagar os que mais têm, compensado —supostamente— por um alívio nos impostos indiretos sobre o consumo, como o IVA, que sufocavam os mais vulneráveis.
Mas a realidade, implacável e devoradora, destruiu a miragem.
Aquele desenho tributário não foi mais do que a ata de fundação de um inferno fiscal, o princípio sistemático de arrancar do trabalhador uruguaio o fruto sagrado de seu esforço e sua mínima capacidade de poupança.
Também, por via das dúvidas, confiscou-se por consequência o sistema público de aposentadorias, já que as contribuições se tornavam cada vez mais pesadas.
Daí à multiplicação da informalidade houve apenas um único passo.
A grande mentira do alívio: Prometer para saquear
Foi implementado o Imposto de Renda das Pessoas Físicas (IRPF) sob a promessa solene de que o peso do IVA diminuiria para aliviar, aos confiscados por esse imposto, o custo sobre sua capacidade de consumo.
O cidadão acreditou. Confiou que o Estado e seu governo de esquerda eram sensatos, racionais e, em sua infinita benevolência democrática e republicana, pensou que a balança seria equilibrada.
Não era sustentável aplicar uma retirada sobre o salário e ao mesmo tempo manter um imposto arrecadatório sobre as compras diárias.
A promessa desapareceu no ar. O IVA nunca baixou de maneira real nem estrutural.
O Estado governado pela esquerda, longe de escolher entre um modelo ou outro, ficou com tudo: manteve intacto o imposto mais regressivo sobre o consumo e, além disso, acrescentou uma máquina implacável de extração sobre os salários.
Foi o nascimento do duplo castigo: castiga-se o indivíduo pelo que ganha ao levantar-se todas as manhãs e sair para ver se consegue sustentar-se trabalhando, e volta-se a castigá-lo com crueldade quando vai ao mercado comprar o indispensável para subsistir.
A voracidade da besta: Quando a realidade supera o cinismo
Os números do despojo revelam a verdadeira magnitude da tragédia.
O que foi projetado timidamente e prometido solenemente nos papéis como uma arrecadação moderada —apenas cerca de 450 milhões— transformou-se rapidamente em um tsunami confiscatório de mais de 1,45 bilhão de dólares que inundou os cofres públicos.
Não de “rendas”, porque não era ali que incidia o tributo; mas de salários. Não se descontava o indispensável para viver do esforço do trabalhador. Praticamente, apenas se debitou o mínimo da prestação da moradia, enquanto, além disso, ele devia pagar preços com o IVA que nunca foi realmente reduzido.
Esse abismo monumental entre o calculado e o arrecadado não foi um erro de cálculo contábil; foi a radiografia de uma voracidade insaciável do redistribuidor.
Não foram os mais ricos os afetados; foram os assalariados formais.
Milhões e milhões de pesos que deveriam ter permanecido nos bolsos dos indivíduos que trabalham, alimentando a poupança familiar, formando capital próprio ou permitindo planejar um futuro com dignidade, foram arrancados pela raiz da economia privada.
O dinheiro dos cidadãos passou a ser botim de guerra de uma burocracia sedenta.
O castigo ao mérito: Trabalhar mais para afundar mais
O mais perverso desse esquema é como destruiu os alicerces do mérito e do progresso pessoal. Construiu o dilema de trabalhar formalmente para viver ou subsistir na informalidade. Ousar acumular trabalho, ter mais de um emprego, era suicídio.
Considerava-se renda acumular recursos essenciais para melhorar apenas a qualidade de vida familiar.
No Uruguai pós-reforma, as regras do jogo condenam o esforço, confundindo trabalhador com rentista.
À medida que o trabalhador se mata de trabalhar, busca superar-se, faz horas extras ou sobe degraus com base em talento e sacrifício, a progressividade confiscatória do IRPF atua como uma âncora invisível, porém letal.
Quanto mais cresce a renda nominal, mais agressiva é a mordida do Estado.
O resultado é dilacerante: o poder aquisitivo evapora, a capacidade de poupança básica se reduz a cinzas e o trabalhador descobre com amargura que o sistema o castiga caso tente prosperar.
Deve conformar-se com um salário formal baixo ou requisitado e com um imposto alto sobre o que consome, também confiscatório de sua capacidade aquisitiva.
Progredir deixou de ser um prêmio para converter-se em um crime de lesa-renda penalizado pela fazenda pública.
A fábrica da exclusão: 30% ao relento
Mas o golpe mais cruel dessa arquitetura tributária não se limitou a castigar o trabalhador formal; seu peso sufocante transformou o país em uma implacável fábrica de trabalhadores informais e pobres sem capacidade de consumo.
Construiu-se o Uruguai “país caro”.
Presos entre encargos sociais sufocantes, custos trabalhistas altíssimos e um sistema que espreme tanto o empregador quanto o empregado, milhares de uruguaios foram empurrados para as margens do sistema de emprego.
Hoje, quase 30% da força de trabalho sobrevive na mais absoluta informalidade, condenada ao desamparo institucional: sem direitos trabalhistas de nenhum tipo, sem cobertura de saúde protegida, sem contribuições previdenciárias nem perspectivas de uma velhice digna.
A voracidade fiscal, longe de proteger o fraco, destruiu os incentivos à formalização e criou uma legião de cidadãos descartáveis, desprovidos de qualquer rede de segurança.
Onde ficou o botim?
E a grande pergunta que ressoa com eco fantasmagórico em hospitais colapsados, em escolas e liceus públicos arruinados e em estradas cinzentas é: onde ficou todo esse dinheiro?
Os bilhões extraídos à força de imposto e suor não se traduziram em melhores serviços públicos.
Não há uma saúde de elite, nem uma educação que compita com o primeiro mundo, nem uma segurança blindada.
O botim colossal simplesmente serviu à esquerda para alimentar um Estado ogro, obeso, cheio de gordura burocrática, um aparato político inflado que cresce às custas da asfixia do setor produtivo.
A reforma tributária de Astori não reformou nada para melhor; institucionalizou o espólio, o compadrio, o nepotismo, o “companheirismo”.
Transformou o Estado em um sócio parasitário que fica com a parte do leão do consumo do pobre, sem arriscar um centavo, deixando grande parte da sociedade na informalidade e o trabalhador formal preso em um labirinto fiscal onde a poupança é um luxo proibido e o futuro, um privilégio confiscado antes de nascer.
Pressão fiscal e trabalho
Poupança e formalidade
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