Por que a intervenção em Caracas vai além do petróleo e reflete uma disputa estratégica internacional
Após a operação das Forças Armadas dos Estados Unidos em Caracas e o traslado do regime de Maduro para território norte-americano, as reações públicas se dividiram de forma intensa entre apoio e condenação.
A maior parte das críticas se apoiou em dois argumentos.
O primeiro afirma que houve violação do Direito Internacional Público e que a Organização das Nações Unidas foi completamente deixada de fora.
O segundo sustenta que o verdadeiro objetivo era o petróleo venezuelano.
Ambas as leituras têm pontos reais.
Mas nenhuma delas é suficiente para explicar o que ocorreu.
O Direito Internacional Público não dispõe de mecanismos efetivos de imposição.
Na prática, isso o transforma em um sistema normativo incompleto.
Quanto à ONU, criada em 1945, ela atuou de maneira decisiva em apenas um grande conflito armado internacional, a Guerra da Coreia entre 1950 e 1953.
Desde então, sua influência tem sido majoritariamente declaratória e burocrática.
Essa realidade levou até defensores históricos do multilateralismo a questionarem a estrutura e a utilidade prática da organização.
A explicação centrada apenas no petróleo também simplifica demais.
É provável que empresas ocidentais aumentem a produção energética na Venezuela.
Mas reduzir toda a operação a um interesse extrativista expressa mais um reflexo ideológico do que uma leitura estratégica.
O fator determinante é geopolítico.
Os Estados Unidos estão inseridos em uma disputa estrutural com a China por influência global, comércio, tecnologia e projeção de poder.
Nesse contexto, a presença crescente da China na América Latina e no Caribe, região tradicionalmente vista em Washington como área estratégica central, é percebida como um sinal de alerta sério.
A Rússia também entra nessa dinâmica.
Apesar do declínio econômico, mantém capacidade militar relevante e aprofundou sua aproximação com a China, em parte como consequência da guerra na Ucrânia.
O eixo Pequim–Moscou desafia diretamente a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos, e sua expansão no hemisfério ocidental não pode ser tratada como um detalhe.
Sob essa perspectiva, a intervenção na Venezuela se entende menos como uma operação movida por recursos naturais e mais como uma ação para reordenar equilíbrios de poder, enviar sinais estratégicos e limitar a penetração de potências rivais em uma região-chave.
A narrativa dos “piratas do petróleo” pode ser funcional para certas agendas políticas.
Mas explica pouco do mundo atual.
O que está em jogo não é apenas energia.
São influência, alinhamentos e controle estratégico em um cenário global cada vez mais fragmentado.
O desfecho dependerá de os Estados Unidos conseguirem sustentar essa estratégia ao longo do tempo.
