Um exame da relação entre o tamanho do Estado, o emprego produtivo e a geração de riqueza no Uruguai.
Estado Mínimo ou Leviatã?
23 Bilhões de Razões para o Ceticismo
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
O Uruguai chegou a ser, no final do século XIX, um país com um Estado mínimo e uma renda per capita comparável à das nações desenvolvidas, precisamente porque o respeito ao capital e a sobriedade nos gastos públicos eram considerados naturais.
O declínio contínuo observado desde a consolidação de um modelo profundamente estatizante não decorre da escassez de recursos públicos, mas da forma como esses recursos são destinados.
Enquanto continuarmos aceitando que a maior parte da riqueza nacional se dissipe pelos corredores da inércia burocrática, continuaremos pagando com estagnação o preço da nossa própria complacência.
O ordenamento institucional não necessita de mais tributos. Necessita, com urgência, de uma eliminação radical dos privilégios burocráticos para devolver ao cidadão a soberania sobre o seu próprio destino.
Não existe qualquer legitimidade social para um nível de gasto público tão insustentável.
A evolução dessas dinâmicas institucionais, cujos abusos continuam crescendo enquanto o poder se centraliza cada vez mais, é explicada com clareza por Daron Acemoglu em Por Que as Nações Fracassam, onde demonstra como as instituições extrativistas impedem sistematicamente a prosperidade econômica.
Não existe pobreza infantil dissociada da pobreza do ambiente familiar em que a criança vive: desemprego, analfabetismo e destruição da capacidade produtiva constituem suas verdadeiras causas.
A expressão “pobreza infantil”, tratada como se fosse um fenômeno autônomo e isolado da realidade que a cerca, é conceitualmente equivocada.
Pretender isolar a vulnerabilidade das crianças e enfrentá-la por meio de programas setoriais constitui tanto um erro conceitual quanto uma conveniência burocrática. Isso ignora a mais elementar lei da organização social: a criança não é um agente econômico isolado, mas o membro mais vulnerável de uma estrutura familiar devastada.
Falar de pobreza infantil sem mencionar o colapso material e cultural do ambiente familiar representa uma forma de hipocrisia estatística, política e social.
A privação sofrida pelas crianças é, na realidade, o sintoma visível de um tecido familiar previamente desarticulado por fatores estruturais crônicos.
A destruição do emprego formal, provocada pelo excesso de regulamentação e pela elevada carga tributária, condena os chefes de família à informalidade ou ao desemprego de longa duração. Sem renda genuína, o núcleo familiar inevitavelmente entra em colapso.
O fracasso da educação pública tradicional deixou de ser apenas um problema pedagógico. Transformou-se em uma condenação econômica.
O analfabetismo funcional e a ausência de competências básicas entre os adultos constituem uma barreira quase intransponível à mobilidade social e à inserção no mercado de trabalho, aprofundando a marginalização.
As famílias afetadas por problemas de saúde, dependência química ou limitações físicas permanecem presas a um sistema assistencialista que prefere perpetuar a dependência por meio de subsídios insuficientes em vez de reorganizar incentivos voltados à reabilitação e à reinserção produtiva no mercado de trabalho.
A burocracia estatal insiste em fragmentar a pobreza para justificar a criação de novos órgãos, ministérios e programas específicos que apenas multiplicam cargos públicos.
A realidade é indivisível. A única política verdadeiramente eficaz para reduzir a pobreza infantil é aquela que remove as barreiras institucionais que impedem os pais de trabalhar, estudar e progredir em liberdade.
Enquanto o Estado absorver os recursos que deveriam financiar essa capitalização cultural e econômica, os programas focalizados continuarão sendo apenas caros analgésicos para uma doença que o próprio Estado estimula e explora eleitoralmente.
O ponto é simples: a pobreza resulta da falta de oportunidades de trabalho provocada pelo direcionamento do gasto público para prioridades vergonhosas.
A pobreza não é um estado místico nem uma maldição geográfica. É a consequência direta de um processo de esvaziamento econômico.
Quando o Estado decide destinar a maior parte desses US$ 23 bilhões à manutenção de privilégios corporativos, burocracias redundantes e um aparato político hipertrofiado — essas prioridades vergonhosas — destrói simultaneamente o emprego de duas maneiras distintas.
Por meio da asfixia fiscal (destruição do investimento).
Cada peso gasto pela burocracia foi anteriormente retirado do bolso de um comerciante, de um produtor rural ou de um industrial. Ao retirar esse capital por meio de impostos diretos ou do aumento artificial dos custos logísticos e dos serviços públicos, o Estado impede que esses agentes ampliem seus negócios, modernizem suas atividades ou contratem novos trabalhadores.
O excesso de gasto público confisca o combustível do emprego privado.
Por meio da rigidez estrutural (o intermediário inútil).
Esse enorme fluxo de recursos nunca retorna à sociedade na forma de melhor educação ou de infraestrutura capaz de facilitar a atividade econômica. Permanece retido no pedágio imposto pela própria estrutura estatal.
Como consequência, as famílias mais vulneráveis ficam presas entre duas forças destrutivas: um sistema público de ensino deteriorado e superlotado, incapaz de prepará-las para o mercado de trabalho moderno, e um mercado de trabalho enfraquecido, incapaz de absorvê-las porque já foi sufocado pelo próprio Estado.
A maior indecência consiste em justificar o tamanho do Estado em nome dos mais necessitados quando, na prática, o sistema opera exatamente no sentido contrário. Enfraquece a capacidade da sociedade civil de gerar riqueza e empregos genuínos, condenando as famílias à dependência crônica das migalhas assistenciais — aqueles US$ 30 milhões distribuídos como esmolas — que a própria burocracia devolve para legitimar sua existência.
O Emprego Confiscado e a Farsa Redistributiva
Chegamos, assim, ao núcleo do problema, onde a cumplicidade política e a cegueira econômica confundem deliberadamente as causas com as consequências.
A pobreza não é uma fatalidade nem um acidente histórico. É a consequência direta e inevitável de um processo deliberado de esvaziamento, concebido para que aqueles que detêm o poder de resolvê-la possam beneficiar-se de sua permanência.
Quando um Estado decide, de forma obstinada, destinar a maior parte de seus US$ 23 bilhões ao financiamento de prioridades vergonhosas — burocracias redundantes, privilégios corporativos e a manutenção de um aparato político hipertrofiado — está assinando a sentença de morte do emprego genuíno.
Esse mecanismo de asfixia econômica atua com a precisão fria de uma guilhotina em duas frentes simultâneas.
Por meio da confiscação do capital produtivo.
Esses bilhões de dólares não surgem espontaneamente nos escritórios do Ministério do Desenvolvimento Social. São retirados da sociedade por meio da penalização da poupança, do esforço produtivo e da geração de riqueza.
Ao retirar esses recursos de comerciantes, produtores rurais, industriais e empreendedores por meio de uma carga tributária sufocante, de tarifas públicas artificialmente elevadas e dos juros destinados ao financiamento de uma dívida pública crescente, o Estado lhes retira o capital indispensável para expandir seus negócios, incorporar tecnologia e, sobretudo, contratar mais trabalhadores.
Cada cargo político desnecessário, cada posto público supérfluo e cada gasto injustificado com organizações não governamentais representa um emprego genuíno que deixa de ser criado ou é destruído no setor privado.
Por meio da institucionalização da dependência.
O Estado absorve os recursos produtivos e, em troca, oferece às famílias mais vulneráveis uma educação pública degradada, incapaz de prepará-las para empregos formais de boa remuneração, e um mercado de trabalho enfraquecido, estrangulado pelos próprios custos e exigências impostos pelo Estado.
Para justificar sua própria existência, a burocracia retorna então com aqueles US$ 30 milhões — as migalhas que restam do banquete — apresentando-os como um supremo ato de sensibilidade social.
É uma farsa perfeita: destrói-se a capacidade da sociedade de gerar oportunidades de trabalho, condenam-se famílias inteiras à marginalização pela ausência de emprego e, em seguida, apresenta-se um subsídio miserável como a única solução disponível.
A verdadeira compaixão não está no assistencialismo que perpetua a dependência, mas na libertação das forças produtivas da sociedade.
Se realmente desejamos erradicar a pobreza, devemos desmontar a estrutura desse Estado opressor e devolver a cada cidadão a soberania sobre o seu trabalho, sua propriedade e o seu próprio destino.
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