A man seen from behind at an airport counter, holding a passport and a small suitcase, facing an empty runway at dawn.

Nossa Ditadura Democrática

De Quem é, Afinal, a Soberania

Carta de Despedida: O Passaporte como Única Propriedade Privada

Montevidéu, 1º de fevereiro de 2026

Queridos pais,

Deixo esta carta sobre a mesa porque dizer tudo isso em voz alta dói demais, e porque sei que vocês, que lutaram tanto para que eu me tornasse um profissional, são os que mais vão sentir a minha ausência.

Mas hoje, eu vou embora.

Não vou embora porque não ame este país. Vou embora porque o país decidiu que eu não me pertenço mais.

Me formei, trabalhei duro, tentei “ser alguém”, como vocês diziam.

Mas em 2026, ser alguém significa apenas ser um número de conta para o absolutismo da vez.

Cansei de abrir minha conta bancária todo mês e perceber que sou sócio minoritário do meu próprio salário.

O Estado, com uma voracidade que nem os reis da França ousariam imaginar, decide por decreto quanto vale o meu tempo, quanto do meu esforço pertence a eles e quais migalhas me restam para construir um futuro.

Dizem que isso é “democracia”, mas eu só vejo um engano cuidadosamente redigido.

Como pode ser democracia quando o valor da minha casa é aquele que eles definem para me cobrar mais?

Como pode ser liberdade quando minhas economias estão sempre sob ameaça de confisco ou de cobranças arbitrárias?

Sinto que minha vida está sendo expropriada em suaves parcelas mensais.

Vocês me ensinaram a ser honesto, mas aqui a honestidade é punida com multas e a eficiência com mais impostos.

Não quero viver em um lugar onde o sucesso é tratado como espólio de guerra para ser repartido entre quem nunca se arriscou.

Sinto que, se ficar, estarei financiando minha própria asfixia.

Vou para um lugar onde, pelo menos, o fruto do meu talento seja meu.

Onde o Estado seja árbitro, e não dono.

Levo comigo meu diploma, minha vontade de trabalhar e a tristeza de saber que este Uruguai está perdendo gente que sonha, para se encher de gente que só sabe arrecadar.

Não sintam tanto a minha falta.

Pensem que, pela primeira vez em muitos anos, serei dono da minha própria vida.

Com carinho,

O filho que teve que escolher entre o seu país e o seu futuro.

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