Dos partidos de massa históricos ao vazio de liderança: a erosão dos intermediários políticos no Uruguai e no mundo
Em muitas partes do mundo, eles desapareceram e poucos ainda se lembram deles.
É um fato comprovado que muitos partidos políticos, concebidos como instrumentos intermediários entre o indivíduo e o Estado, surgidos a partir das ideias e conceitos do Iluminismo e, em certa medida, descendentes dos antigos clubes políticos anteriores à Revolução Francesa, alguns com mais história do que outros, deixaram de existir ou perderam a influência que outrora possuíam.
Entre vários exemplos, podem ser citados a União Cívica Radical na Argentina, a Democracia Cristã no Chile e na Itália, o Partido Trabalhista no Brasil, e o Partido Liberal na Grã-Bretanha, que posteriormente se transformou no Partido Liberal Democrata, mas permanece muito distante do que já foi. A Venezuela também não foi exceção, com o colapso tanto da social-democracia quanto do COPEI, partido de origem social-cristã.
Este último caso de fracasso partidário foi o mais desastroso de toda a Ibero-América, pois abriu as portas do poder a um obscuro tenente-coronel que havia liderado um pequeno e mal-sucedido golpe de Estado: Hugo Chávez.
Ele não foi um coronel Perón, nem um Getúlio Vargas, tampouco um Franco ou um Pinochet, nem mesmo um De Gaulle, que emergiu de um golpe técnico na França. Também estava muito distante de figuras como Reagan, Margaret Thatcher ou mesmo Lech Wałęsa, indivíduos com elevado capital político interno, independentemente da avaliação que se faça de suas políticas.
Foi, ao contrário, um demagogo, um populista, termo amplo que abarca muitas dimensões, que lançou as bases para que um país que flutua sobre um imenso lago de petróleo começasse a empobrecer.
Não chegou a testemunhar o desfecho catastrófico, pois faleceu em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, deixando como sucessor um homem que afirmava se comunicar com ele por meio de um pequeno pássaro.
Sim, por mais inacreditável que pareça, como algo saído do Ripley’s Believe It or Not.
Ainda assim, entre o pequeno pássaro e o ex-motorista de ônibus que assumiu o poder, havia vários graus de distância.
Tudo isso vem à tona em razão da situação atual dos partidos fundadores do Uruguai, o Partido Nacional, também conhecido como Blanco, e o Partido Colorado. Ambos vêm perdendo influência desde 1971, ano em que a então recém-criada Frente Ampla, uma coalizão de esquerda, alcançou o segundo lugar eleitoral em Montevidéu, superando o Partido Nacional por uma margem mínima de votos.
Essa tendência só se agravou para as forças históricas nascidas e enfrentadas desde a Batalha de Carpintería, no século XIX. Desde a eleição de 1999, aquela coalizão antes considerada novel passou a ser a força política mais votada do país.
É verdade que a Frente Ampla nasceu e se manteve como uma coalizão, embora cada vez menos ampla, mas essa é outra história. Já os partidos fundadores não seguiram esse caminho, salvo em raras experiências departamentais, nas quais obtiveram êxito relevante apenas no departamento de Salto, algo claramente insuficiente diante do que já representaram.
Tudo indica, ao menos por ora, quando ainda faltam quatro anos para as próximas eleições, que a recuperação será extremamente custosa para essas bandeiras históricas. A engenharia eleitoral não basta quando falta o elemento humano: o caudilho, figura quase desaparecida, ou um verdadeiro líder.
Alguns aguardam um “desejado”, que não é Fernando VII, mas que cometeu quase tantos erros quanto o monarca espanhol, enquanto outros permanecem presos a pequenas disputas de influência dentro de um partido que sequer alcançou 18 por cento dos votos nas últimas quatro eleições nacionais.
Existem outras forças políticas menores, que podem crescer ou encolher um pouco, mas que não são determinantes, sem qualquer intenção de ofensa.
Consequentemente, torna-se urgente encontrar uma ou mais figuras, que existem, mas permanecem afastadas da vida pública, capazes de preencher o enorme vazio político atualmente existente no país, sob pena de que um pequeno plumífero volte a entrar em cena.
