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Oda à Virtude Seletiva

Um refúgio seguro e bem pago para inúteis sem credenciais.

Todos os partidos políticos supõem que, ao vencer eleições, colocarão seus melhores quadros nas responsabilidades públicas. Depois, a enfadonha repartição de cargos para manter o Parlamento sob controle se impõe ao interesse público.

O Frente Ampla não foi exceção. Prometeu um governo dos melhores, sem importar a ideologia. Ninguém acreditou. Os próprios vinham com faca nos dentes, e os opositores conheciam bem essas promessas feitas apenas para vestir o rei nu.

O aspecto mais hipócrita dessa proposta é insistir em concursos públicos para todos, exceto para cargos do Poder Executivo e dos níveis mais altos do Legislativo.

Exigem mérito dos outros enquanto proliferam cargos políticos de confiança, assessorias diretas, nepotismo familiar, cotas disfarçadas de igualdade de gênero ou o velho argumento do “muito preparado para…”.

Designam pessoas semi-analfabetas por ideologia, sem preparo específico para nada.

Aqueles que no setor privado não seriam nem porteiros ocupam impunemente altos cargos da Administração. Os resultados históricos e atuais são evidentes.

Esta ode à virtude seletiva concedida pela política resume o paradoxo. Para alguns, concurso, escolaridade mínima e muita sorte. Para os cargos mais altos, entram cantores de slogans, cotas de cor, ambiguidades simbólicas ou simples referências vazias de profissionalização, sustentadas por outro amigo igualmente despreparado.

Arotxa resumiu com inteligência. Toma chá de alfafa, mas tem muitos votos.

Ó sagrada igualdade dos humildes.

Esse grito que ressoa. Ou para todos ou para ninguém.

Uma frase talhada no mármore do sacrifício, hoje bordada em lenços de seda por mãos que nunca conheceram o arado.

Que deleite observar a balança da Justiça. Tão precisa para o jovem que busca um cargo simples, obrigado a provar engenho, estudo e exames impecáveis.

Para ele, a porta é estreita e o muro é alto. Não há maior pecado democrático do que um funcionário que não saiba recitar a própria gramática.

Mas que espetáculo ocorre no topo. Onde o ar é mais rarefeito e o vinho mais caro, preparação virou vulgaridade fora de moda.

Para que concursos quando se possui o talento supremo de ser amigo.

Essa é a mais bela contradição do nosso tempo. Exigimos genialidade de quem serve café ou dirige carros, enquanto abraçamos o vazio de quem decide o destino do país.

Confiança é o único título que não precisa de tinta. O cargo político brilha mais quanto menor é o mérito de quem o ocupa.

Pátria para todos, certamente.

Para os de baixo, o rigor da lei e do exame. Para os de cima, o abraço quente da fortuna.

Neste mundo de aparências, só os ingênuos acreditam que governar exige algo além de um bom amigo e uma relação conveniente.

“O dever é aquilo que exigimos dos outros, nunca de nós mesmos.”

O funil da meritocracia. Pátria para todos. Para os companheiros.

No imaginário coletivo uruguaio, a frase “Haverá pátria para todos ou para ninguém” soa como juramento sagrado. A promessa de uma mesa sem cabeceiras, onde o direito de um é o direito de todos.

No entanto, no tabuleiro da administração pública contemporânea, esse princípio sofreu uma mutação geométrica. Tornou-se um funil.

Assim como o artigo 8º da Constituição, foi prostituído pelos próprios cultores do igualitarismo.

O concurso para os de baixo.

O Frente Ampla, defensor da institucionalidade por competências, empunhou com zelo a bandeira da igualdade.

Os social-comunistas agarram-se ao manual do concurso público, para os outros.

Para limpar um hospital, arquivar documentos ou ser administrativo, o cidadão deve provar mérito, escolaridade e conhecimento, além de enfrentar sorteios.

Aqui, a pátria é para todos os que conseguem vencer a barreira da idoneidade entre milhares de candidatos.

O oásis da confiança política.

Nos altos escalões do Executivo e do Legislativo, o cenário muda.

A preparação deixa de ser exigência concreta e se transforma em confiança política.

Enquanto a base da pirâmide se profissionaliza, o topo permanece livre de exames, mesmo decidindo sobre economia, segurança e educação.

Nos cargos de confiança, o currículo importa menos que a lealdade partidária, pessoal, ideológica ou familiar.

A contradição é evidente.

No nível operacional, busca-se o mais capaz.

No nível estratégico, aceita-se o mais próximo.

Surge uma burocracia de duas velocidades. Uma massa que entrou pelo mérito e uma elite que entra pelo tapete vermelho da nomeação direta.

Se o concurso garante eficiência e transparência, por que abrir mão dele justamente nos cargos mais relevantes.

A pátria para todos termina onde começa o dedo que aponta.

No próximo artigo, veremos como se entra pela janela e os resultados do fracasso de governar.

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