Editorial illustration about global strategy, media distractions, and structural decisions between Europe, Mercosur, and South America.

Ruído global, estrutura real e decisões prováveis no novo tabuleiro estratégico

Como interpretar o acordo UE–Mercosul, a liderança emergente da Argentina e as oportunidades que o Uruguai não deveria ignorar

Vivemos um momento peculiar do sistema internacional.

Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil identificar quais fatos são realmente estratégicos e quais são apenas ruído midiático amplificado. Ações de enorme impacto real ficam ofuscadas por narrativas chamativas, polêmicas ou até absurdas, que dominam manchetes, redes sociais e debates públicos, enquanto processos de fundo avançam quase em silêncio.

O caso do interesse público pela Groenlândia, colocado na agenda global ao mesmo tempo em que se desenrolavam episódios críticos na Venezuela e em outros cenários sensíveis, é um exemplo quase didático. Não porque a Groenlândia não tenha valor estratégico, que tem, mas porque esse valor pode ser administrado de forma discreta, cooperativa e eficaz, sem necessidade de transformá-lo em espetáculo. Quando se escolhe o espetáculo, vale perguntar por quê.

Essa lógica não é nova, mas hoje tornou-se sistemática.

O ruído cumpre uma função. Captura atenção, gera polarização emocional, simplifica o debate e desloca do foco aquilo que exige análise, paciência e responsabilidade política. O jornalismo global, longe de resistir a essa dinâmica, costuma amplificá-la. Não por conspiração, mas por incentivos. O que chama atenção vende mais do que o que é estrutural.

Se alguém quer compreender o mundo a partir de uma perspectiva estratégica, o primeiro passo é separar camadas.

Existe uma camada estrutural, lenta e mensurável, que se move ao longo de décadas. Existe uma camada tática, onde decisões de impacto imediato são tomadas dentro dessa estrutura. E existe uma camada narrativa, onde se constroem relatos para justificar, ocultar ou vender as anteriores.

Confundir essas camadas é o erro mais comum.

Tomemos o acordo União Europeia–Mercosul. O debate público costuma oscilar entre a celebração acrítica e a condenação fatalista. Nenhuma das duas posições ajuda a entender o que realmente está em jogo.

É verdade que a estrutura produtiva atual do Mercosul é assimétrica em relação à Europa. A região exporta principalmente bens primários e agroindustriais e importa manufaturas de maior valor agregado. Também é verdade que o Brasil, ator central do bloco, passou por um processo de desindustrialização relativa nas últimas décadas. Negar isso seria negar a evidência.

Mas desses fatos não se deduz automaticamente que o acordo “certifique” uma condenação irreversível ao subdesenvolvimento. Isso é uma conclusão ideológica, não uma necessidade estratégica.

Um acordo comercial, por si só, não define o destino de uma região. O que define trajetórias é como ele é utilizado, quais políticas o acompanham, quais incentivos são criados, quais capacidades são desenvolvidas e, sobretudo, se existe ou não uma estratégia própria.

A Europa não firma esse acordo por altruísmo nem por romantismo multilateral. Ela o faz porque precisa diversificar fornecedores, garantir insumos críticos, reduzir dependências estratégicas e projetar influência regulatória. Do seu ponto de vista, trata-se de uma decisão racional.

A pergunta relevante não é se isso é bom ou ruim em abstrato, mas quais probabilidades se abrem para os países do Mercosul de acordo com as decisões que tomarem.

A partir de uma ótica prospectiva, podem-se imaginar pelo menos três trajetórias plausíveis.

A primeira, de alta probabilidade se nada mudar, é a consolidação do padrão atual. Exportações primárias, baixo conteúdo tecnológico, dependência logística e fraca integração regional. Nesse cenário, o acordo apenas formaliza o que já existe. Não piora nem melhora substancialmente, mas cristaliza inércias.

A segunda trajetória, de probabilidade média, mas crescente, é a da especialização inteligente. Aproveitar acesso a mercado, padrões e previsibilidade para atrair investimentos, escalar a agroindústria, serviços baseados em conhecimento, logística avançada e manufaturas ligadas a recursos. Isso exige políticas ativas, coordenação público-privada e visão regional. Não acontece sozinho, mas está longe de ser uma fantasia.

A terceira trajetória, de baixa probabilidade, mas alto impacto, é a ruptura estratégica. Um Mercosul que redefine sua integração interna, constrói cadeias regionais de valor, negocia a partir de maior densidade produtiva e utiliza acordos externos como instrumentos, não como destino. É difícil, mas não impossível. Exige liderança política, algo historicamente escasso na região.

É aqui que entra a Argentina.

O processo argentino atual, independentemente de simpatias ou rejeições, introduz um fator disruptivo na América do Sul. Pela primeira vez em décadas, um país central da região tenta, com sucesso inicial, desmontar um modelo de hiper-regulação, déficit crônico e captura corporativa do Estado. Não se trata de um experimento menor.

A Argentina está mostrando que é possível ordenar a macroeconomia, reduzir a inflação, recompor incentivos e falar em termos de produtividade, investimento e regras claras. O resultado ainda está em aberto, mas a direção é nítida.

Se a Argentina consolidar esse rumo, se tornará o principal vetor de mudança regional. Não por hegemonia política, mas por demonstração empírica. Nada influencia mais do que um vizinho que começa a ir melhor fazendo algo diferente.

Para o Uruguai, isso é decisivo.

O Uruguai não tem escala para liderar a América do Sul, mas tem capacidade de ler sinais, antecipar movimentos e escolher bem. Seu maior risco não é assinar acordos, mas permanecer imóvel enquanto o entorno muda.

Um Mercosul com uma Argentina reformista, um Brasil pragmático e uma Europa em busca de parceiros confiáveis abre um espaço estratégico interessante para o Uruguai. Mas somente se abandonar o conforto do comentário e avançar para a definição de projeto.

A chave, portanto, não está em cair no ruído midiático, nem em abraçar narrativas fatalistas. Está em pensar probabilisticamente. Em perguntar quais cenários são mais plausíveis, quais decisões aumentam ou reduzem probabilidades e onde faz sentido se posicionar.

O mundo não se move por slogans, mas por incentivos, capacidades e correlações de poder. Quem confunde narrativa com estrutura está condenado a reagir sempre tarde.

Separar distração de intenção real não é cinismo. É responsabilidade intelectual. E em tempos de ruído, pensar com serenidade torna-se, paradoxalmente, o ato mais disruptivo de todos.

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