Na nossa nota anterior, O que você quer, Cipriano, abordamos um tema que diz respeito a todos os seres humanos, a idade e o idadismo, entendido como a estigmatização das pessoas idosas.
Também lembramos a pretensão da Organização Pan Americana da Saúde de combater essa discriminação.
Na antiguidade, os velhos eram especialmente valorizados porque eram considerados o depósito do conhecimento e da experiência.
À medida que surgiram memórias auxiliares e a tecnologia se desenvolveu, a utilidade social dos idosos diminuiu.
Hoje precisamos de uma criança de oito anos para nos ajudar a usar um celular.
A percepção de quando uma pessoa é considerada velha foi mudando.
No Uruguai do início do século vinte, a expectativa de vida era de 46,83 anos para os homens e 49,03 para as mulheres.
Dez anos depois quase nada havia mudado.
Eduardo Zamacois, jornalista e escritor espanhol nascido em Cuba e radicado na Argentina, entrevistou José Podestá.
Podestá havia se tornado famoso por interpretar Juan Moreira, e Zamacois o entrevistou para a revista madrilenha Por esos mundos.
Em certo momento manifestou o desejo de ver uma apresentação de Juan Moreira.
O escritor, então com trinta e seis anos, conta que Podestá afundou na poltrona como se tivesse acabado de sentir sobre seus ombros atléticos o peso de seus cinquenta anos.
E acrescenta que o velho ator parecia ouvir suas lembranças deslizando pela alma.
Em 1930 Carlos Gardel gravou um tango com música de Francisco Pracánico e letra de José Zubiría Mansilla intitulado Enfundá la mandolina.
A letra dispensa comentários.
O que você quer, Cipriano,
você já não dá mais jugo.
Seus cinquenta abriles pesam,
e junto com o cabelo que fugiu da cabeça
foi embora o charme que não volta mais.
E o que dizer daquele personagem do tango de Petorossi
Quarenta anos de vida me acorrentam,
cabeça branca, coração velho.
Que idade teria aquele velho verde que gastava seus recursos embriagando Lulu com champanhe.
Cinquenta, como Cipriano.
Nada há de original nessa percepção do tempo que passa.
O interessante é a coincidência em torno dos cinquenta.
Mas isso era antes.
Hoje os Ciprianos estão vivos e ativos e mandolina soa totalmente fora de moda.
Pedro Camacho, o inesquecível personagem de Vargas Llosa, definiu os cinquenta como a flor da idade, embora depois tenha demonstrado algumas dúvidas.
Esperemos que a Organização Pan Americana da Saúde, que com esses projetos sustenta uma burocracia bem remunerada, alcance seu objetivo de erradicar o idadismo.
Apesar dos bons desejos, as expectativas são para serem aguardadas sentados.
Mas dificilmente no ônibus.
Agora o aumento da expectativa de vida aparece como problema.
Assim, com a aprovação do projeto eufemisticamente chamado de Morte Digna, a senadora de esquerda Constanza Moreira declarou no Parlamento.
Repassou triunfalmente a chamada Agenda de Direitos, aborto, casamento homossexual, liberalização das drogas.
Disse que haviam completado um avanço muito significativo com a regulação da morte assistida.
Invocando o direito de dispor da própria vida, embora não para o abortado.
Acrescentou que não vivemos uma guerra mundial que nos quer mortos jovens, mas que vivemos muito e chegamos a um ponto em que não somos mais autônomos.
Disse que um país super envelhecido como o Uruguai precisa de uma política para regular essas coisas.
Isso me lembra o romance de Bioy Casares, Diário da guerra do porco, onde grupos de jovens saíam para caçar velhos.
O que alguns personagens acreditavam ser uma política do governo.
Em fevereiro próximo Moreira fará sessenta e seis anos.
A esta altura já deveria sentir o que os aviadores aprendem rápido.
A vida passa voando.
