Como a captura estatal da renda agroexportadora transformou uma economia de acumulação privada em um sistema político sustentado pelo consumo permanente de capital produtivo.
O colapso do Estado extrativo no Uruguai
Como a captura estatal da renda agroexportadora transformou uma economia de acumulação privada em um sistema político sustentado pelo consumo permanente de capital produtivo.
O Estado construiu a nação ou o Estado cresceu consumindo a riqueza que a própria nação já havia produzido?
O período de laissez-faire de fato (1856-1870)
Durante esses anos o Uruguai viveu o que mais tarde seria chamado de Revolução Lanar. Enquanto disputas políticas ocupavam o cenário nacional, a economia rural se transformava silenciosamente no motor do país.
A introdução da produção ovina permitiu maior produtividade em menor área que a pecuária bovina tradicional.
Esse processo possibilitou a primeira grande acumulação de capital privado no país.
Como o Estado era fraco e sua capacidade de arrecadação limitada — concentrada principalmente na Aduana de Montevidéu — os produtores rurais retinham a maior parte do excedente gerado.
Esse excedente era reinvestido em cercas, melhorias produtivas e aperfeiçoamento genético dos rebanhos.
O Código Comercial de 1865 e a estabilidade da moeda baseada no padrão-ouro não foram criações complexas do Estado, mas sim regras institucionais claras que permitiram o fluxo de capitais e o crescimento econômico.
O Estado como consumidor de capital
No início do século XX, o batllismo não criou riqueza do nada. Ele passou a redistribuir parte da renda já gerada pelo setor agroexportador.
Entre 1903 e 1930 o sistema político incorporou ideias europeias de socialização de recursos privados para financiar serviços públicos e empresas estatais.
Após 1950 esse modelo atingiu sua capacidade máxima de extração de recursos.
O Estado tornou-se o instrumento de transferência compulsória de riqueza do setor produtivo para sustentar burocracia, subsídios e indústrias protegidas.
O efeito das guerras mundiais
As duas guerras mundiais e a Guerra da Coreia adiaram temporariamente os efeitos desse modelo.
Os preços internacionais da carne e da lã permaneceram extremamente altos e financiaram um Estado de bem-estar em expansão.
Quando esses preços caíram e a Europa recuperou sua produção, o Uruguai descobriu que havia descapitalizado seu próprio motor produtivo.
Instrumentos de captura econômica
Dois mecanismos institucionais foram fundamentais nesse processo.
A política aduaneira e a centralização bancária.
A Aduana como mecanismo de transferência
Tarifas elevadas passaram a proteger indústrias urbanas pouco eficientes, obrigando o setor rural a pagar mais caro por equipamentos e bens importados.
Assim ocorreu uma transferência indireta de renda do setor exportador para setores politicamente protegidos.
O Banco da República e o controle do crédito
Com o monopólio estatal da emissão monetária, o governo passou a influenciar o valor da moeda, o crédito e o câmbio.
A poupança gerada pelo setor exportador foi canalizada para financiar empresas públicas deficitárias e políticas industriais.
A paradoxal industrialização por substituição de importações
Esse sistema criou um ciclo perverso.
O campo gerava divisas.
O Estado capturava essas divisas por meio de políticas cambiais.
Esses recursos eram redistribuídos em salários públicos e subsídios industriais.
Enquanto os preços internacionais permaneceram elevados, o modelo sobreviveu.
Quando os preços caíram, a fragilidade estrutural tornou-se evidente.
Resultado histórico
O país passou de uma economia baseada na acumulação de capital para uma economia baseada no consumo de capital previamente criado.
O Uruguai viveu durante décadas das rendas acumuladas no período inicial de expansão privada.
Mas ao impedir que o setor produtivo continuasse a se capitalizar, o motor do crescimento acabou perdendo força.
Para ler o artigo original em espanhol visite Perspectiva Liberal.
