Political leader standing before theatrical masks symbolizing ideological transformation and strategic repositioning.

Por que Lula tenta se desvincular da esquerda

As recentes declarações de Lula reacendem o debate sobre se a moderação ideológica representa uma evolução política ou uma estratégia para preservar o poder.

AS MÁSCARAS PARA CONSERVAR O PODER
A doença da Hubris que a esquerda cultiva: o ódio à verdade
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano

Lula e a arte da metamorfose
Há, na política, como no teatro de variedades, um velho truque: o do prestidigitador que mostra uma das mãos vazia para que o espectador, distraído pela aparente transparência da palma, não perceba o que acontece dentro da manga.
Luiz Inácio Lula da Silva, o velho sindicalista de São Bernardo do Campo, decidiu agora, aos oitenta anos, que a “esquerda” é um traje que já não lhe serve, ou talvez uma roupa que deixou de combinar com o protocolo dos grandes banquetes internacionais.
“Eu nunca fui de esquerda”, afirma com aquele sorriso simples, quase desarmante, diante da diretora-gerente do FMI, durante uma conversa aparentemente discreta, mas claramente destinada a se tornar pública.
O observador fica perplexo, perguntando-se se o homem sofre de amnésia seletiva ou se simplesmente concluiu que a verdade se tornou um artigo de luxo que já não pode pagar.
Porque o que fazemos com o Foro de São Paulo?
O que fazemos com aquele abraço fundador sob o sol do Caribe, onde Fidel Castro — o grande arquiteto da prisão de ferro — lhe concedeu sua bênção?
Aquilo não era um clube de leitura da social-democracia europeia.
Era uma aliança estratégica, um pacto de “cavalheiros” do pensamento único que prometia o paraíso e terminou, como quase sempre acontece, distribuindo cartões de racionamento.
Ditando orientações para atacar qualquer opositor, destruir qualquer manifestação de liberdade de pensamento e convocar a militância da mentira, seguindo a máxima atribuída a outro socialista, Joseph Goebbels: “Repita uma mentira muitas vezes e ela acabará sendo aceita.”
Lula afirma hoje que não é de esquerda.
Entretanto, sua biografia é um mapa de caminhos percorridos ao lado dos entusiastas do desastre político.
As fotografias continuam lá.
Os arquivos também.
Assim como a cumplicidade silenciosa com Hugo Chávez, o militar que confundiu um país inteiro com o próprio quartel, e a permanente condescendência com Nicolás Maduro, cujo modelo de governo conseguiu transformar abundância em filas por pão e ovos.
E quanto a José Luis Rodríguez Zapatero?
O conhecido mediador espanhol, que percorre os fóruns internacionais suavizando as arestas do autoritarismo sob o verniz do “diálogo”.
Todos eles caminharam, em algum momento, ao lado de um Lula que agora pretende convencer o mundo de que sempre pertenceu ao centro político, ou talvez até à direita, sob a lógica de que os extremos acabam se encontrando, apresentando-se como um equilibrista do pragmatismo.
Na realidade, trata-se de uma manobra de sobrevivência política.
Lula descobriu que a ideologia pode tornar-se um obstáculo para o governante que deseja permanecer no poder.
Para o político sul-americano tradicional, o centro é aquela névoa indefinida onde se escondem os votos que sustentam os orçamentos públicos enquanto, nas sombras, continua sendo aplaudida a velha liturgia revolucionária.
É a grande impostura: apresentar-se como estadista moderado diante dos mercados e, ao mesmo tempo, manter-se como referência da esquerda radical perante seus antigos companheiros.
Não se trata de evolução.
Trata-se de um exercício de cinismo profissional.
O discurso pós-ideológico constitui uma estratégia cuidadosamente calculada para desmobilizar a oposição moderada e tranquilizar o setor empresarial, preservando simultaneamente as alianças profundas do socialismo do século XXI sob a aparência de um líder institucional perante a opinião pública internacional.
Alguns observadores sustentam que isso talvez não seja exatamente uma mentira, mas uma manifestação extrema de realismo político.
Segundo essa interpretação, Lula compreende que governar um país tão grande e diverso como o Brasil torna eleitoralmente inviável a retórica revolucionária do século passado.
Por isso abandona o rótulo da esquerda, não porque tenha mudado suas convicções, mas porque o próprio rótulo passou a representar um peso eleitoral que dificulta a construção das maiorias necessárias para conservar o poder.
O que provoca críticas daqueles que enxergam uma inconsistência ética é que, enquanto internamente Lula se apresenta como um administrador moderado em busca de consenso com o mercado e os setores produtivos, no plano internacional continua demonstrando disposição para proteger muitos de seus aliados históricos, evitando condenar claramente as derivações autoritárias da Venezuela e da Nicarágua.
Essa dualidade explica por que, de um lado, ele é celebrado em fóruns econômicos como garantidor de estabilidade e, de outro, é apontado por seus críticos como o principal patrocinador político de um bloco geopolítico acusado de enfraquecer as democracias da região.
O Lula que agora procura afastar-se do próprio passado não está buscando moderação.
Está buscando camuflagem para que a história — e sobretudo o eleitorado — não lhe cobre, no futuro, as consequências de uma região onde, graças a muitos desses mesmos aliados, milhões vivem entre o exílio, a ruína econômica e a nostalgia da liberdade.
Quando o pano finalmente cair, pouco importará quantas vezes o prestidigitador insista em dizer que é outra pessoa.
Os fatos continuam sendo teimosos.
E o Foro de São Paulo, esse monumento à obstinação ideológica, continua projetando a sombra que acompanha Lula sempre que ele tenta caminhar em direção ao centro político.

Pragmatismo político
Narrativa ideológica
Poder e legitimidade

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