O colapso do socialismo real não encerrou sua influência política.
A disputa deslocou-se para a cultura, as instituições e o Estado, cujas consequências continuam moldando as democracias liberais.
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
Do fracasso econômico à transformação ideológica
O balanço histórico do socialismo aplicado ao longo do século XX constitui uma das experiências políticas, econômicas e humanas mais custosas da era moderna.
Longe de cumprir as promessas de igualdade, prosperidade e emancipação, os regimes inspirados no planejamento centralizado produziram estagnação econômica, concentração de poder e um enfraquecimento sistemático das liberdades individuais.
A eliminação da propriedade privada, a supressão do sistema de preços e a substituição do mercado pelo planejamento burocrático destruíram os mecanismos que coordenam a produção e distribuem os recursos de forma eficiente.
Onde esse modelo foi implantado surgiram, em maior ou menor intensidade, escassez, queda da produtividade, pobreza estrutural e isolamento econômico.
Para sustentar um sistema incapaz de gerar prosperidade tornou-se necessário ampliar continuamente o aparato coercitivo do Estado.
A repressão política deixou de ser uma consequência acidental para tornar-se uma condição de sobrevivência do próprio regime.
As fomes provocadas por decisões políticas, os expurgos, os campos de concentração e a perseguição à dissidência constituem um dos registros históricos mais documentados do século XX.
O fracasso econômico do socialismo, porém, não significou o desaparecimento de seus fundamentos ideológicos.
Ele obrigou sua estratégia a se transformar.
Da revolução à hegemonia cultural
O fracasso prático do modelo soviético levou o marxismo ocidental a revisar seus métodos.
Antonio Gramsci tornou-se a principal referência dessa mudança.
Sua tese sustentava que o poder político depende não apenas do controle do Estado, mas também da capacidade de moldar as crenças, os valores e o senso comum da sociedade.
A hegemonia cultural passou a ocupar o lugar anteriormente reservado à revolução.
O foco deixou de ser a conquista do poder por meio da confrontação direta e passou a concentrar-se na influência gradual sobre as instituições onde as ideias são formadas.
Escolas.
Universidades.
Meios de comunicação.
Sindicatos.
Editoras.
Produção cultural.
Ambiente acadêmico.
O objetivo deixou de ser conquistar primeiro o Estado.
O objetivo passou a ser transformar a cultura para que a mudança política parecesse uma consequência natural.
A disputa pelas ideias substituiu a disputa pelas armas.
A batalha pelo senso comum
A partir desse momento, o sucesso político passou a depender cada vez mais da redefinição do que a sociedade considera moralmente legítimo.
Responsabilidade individual, mérito, propriedade privada e liberdade econômica passaram gradualmente a ser reinterpretados como expressões de desigualdades estruturais.
Ao mesmo tempo, a expansão do Estado passou a adquirir crescente legitimidade moral como instrumento permanente de justiça social.
O debate político deixou de concentrar-se principalmente nos resultados concretos.
Passou a valorizar sobretudo as intenções declaradas.
A legitimidade simbólica começou a substituir a avaliação empírica.
A expansão silenciosa do estatismo
Essa transformação cultural ultrapassou amplamente o terreno eleitoral.
Ela remodelou progressivamente o funcionamento das próprias instituições republicanas.
A iniciativa privada passou a ser vista com desconfiança.
O sucesso econômico começou a ser associado ao privilégio.
O mérito individual perdeu reconhecimento social.
A dependência do Estado ganhou legitimidade política.
A expansão da burocracia deixou de ser percebida como um custo e passou a ser apresentada como expressão de compromisso social.
O cidadão deixou gradualmente de ser visto como protagonista de seu próprio desenvolvimento.
Passou a ser tratado como beneficiário permanente da ação estatal.
Quando essa mudança se consolida, a liberdade deixa de ser compreendida como autonomia.
Ela passa a ser identificada com a capacidade do Estado de atender demandas cada vez maiores.
Uruguai e a crise de governança
Sob essa perspectiva, os desafios do Uruguai não podem ser analisados apenas por indicadores econômicos ou resultados eleitorais.
Existe uma dimensão institucional e cultural mais profunda que limita a capacidade do país de adaptar-se às transformações do século XXI.
Durante décadas, o Estado assumiu progressivamente o papel de principal organizador da vida econômica e social.
A intervenção pública deslocou o debate sobre produtividade, competitividade e geração de riqueza.
Os interesses corporativos passaram a exercer influência crescente sobre as políticas públicas.
As reformas estruturais foram sendo substituídas pela preservação das estruturas existentes.
O resultado foi uma crescente rigidez institucional.
O Estado expandiu-se enquanto sua capacidade de responder com eficiência diminuiu.
O desafio da revolução tecnológica
A transformação mais profunda, contudo, já não vem da política.
Ela vem da tecnologia.
A inteligência artificial, a automação e os sistemas autônomos estão remodelando simultaneamente a produção, o emprego e a organização econômica.
A geração de valor depende cada vez mais do conhecimento, da inovação e das capacidades digitais do que do trabalho tradicional.
Enquanto isso, boa parte do setor público continua funcionando segundo pressupostos institucionais herdados da era industrial.
A distância entre a transformação tecnológica e a adaptação institucional continua aumentando.
Pela primeira vez na história, uma parcela crescente da riqueza será produzida sem a participação direta do trabalho humano.
Essa mudança coloca em questão os fundamentos sobre os quais foram construídos os sistemas tributários, previdenciários e de proteção social.
A questão central deixa então de ser apenas econômica.
Ela passa a ser civilizatória.
Quem financiará o Estado moderno quando uma parcela crescente da riqueza for gerada fora do emprego humano tradicional?
Conclusão
O colapso do socialismo não eliminou sua influência.
Ele transformou sua estratégia.
A disputa política deslocou-se da organização econômica para a cultura, as instituições e a opinião pública.
Essa mudança ajuda a explicar por que ideias desacreditadas por seus resultados econômicos continuam exercendo influência significativa no debate contemporâneo.
A grande questão do século XXI já não diz respeito apenas ao papel dos mercados.
Ela envolve a relação entre liberdade, instituições e transformação tecnológica.
As sociedades capazes de adaptar suas instituições a um mundo em rápida mudança preservarão tanto a prosperidade quanto a liberdade.
As que permanecerem presas a modelos institucionais concebidos para outra época correrão o risco de descobrir que a história raramente perdoa a resistência prolongada à mudança.
Fracasso do socialismo real
Hegemonia cultural e instituições
Mudança tecnológica e liberdade
Continue lendo em Ordem Global e Geopolítica
Apoyá la continuidad de Perspectiva Liberal
Perspectiva Liberal es un espacio editorial independiente. Si valorás este trabajo y querés colaborar con su continuidad, podés hacerlo mediante un aporte voluntario a nuestra cuenta Prex.
Cuenta Prex: 13440

