A transformação do prontuário político em fábula infantil como estratégia de hegemonia cultural e amnésia histórica.
O QUADRINHO DE UM GRANDE DESTRUIDOR
O melhor aluno de Gramsci
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
A amnésia planejada: quando a narrativa infantil mascara o cheiro de chumbo queimado
Há uma engenharia da anestesia cívica que opera com a precisão de um relojoeiro suíço e a paciência de um tecelão de batina.
Ela não se contenta com a conquista dos claustros universitários nem com a colonização dos ministérios; ambiciona algo mais íntimo, mais cirúrgico: a tutela da inocência.
Na interminável guerra cultural que Antonio Gramsci concebeu como etapa prévia à ocupação do poder sem violência explícita — essa paciente demolição dos alicerces morais e republicanos a partir das superestruturas —, o último e mais precioso troféu é a mente da criança.
Para consegui-lo, a fábrica da narrativa oficial aperfeiçoou um gênero tão sutil quanto falacioso: a literatura infantil de doutrinação biográfica.
Sob o pretexto da ternura, do “avô bonzinho” e da epopeia romântica da fogueira e do poncho, constrói-se um artefato de ocultação em massa.
Apresenta-se a nós um universo de fábula no qual a violência homicida, o ataque às instituições democráticas, o sequestro e a extorsão são apagados do mapa da memória como por encanto. Em seu lugar, surge o mito adocicado, a narrativa purificada que esconde meticulosamente a realidade do chumbo, da pólvora e do terrorismo urbano. E até mesmo do governo que enterrou o país ao dilapidar o dinheiro público, como assinalou o sucessor presidencial, pertencente ao mesmo partido de esquerda do personagem “acarinhado”.
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A metamorfose do prontuário em fábula
Tomemos qualquer produto dessa fábrica da ingenuidade dirigida. O mecanismo é sempre o mesmo: toma-se uma biografia manchada pela clandestinidade armada, pelas prisões do povo, pelo assassinato de um trabalhador rural como Pascasio Báez ou pelo estrangulamento institucional da República, e ela é submetida a um banho lustral de papel machê.
Os assaltos a bancos para financiar a subversão antirrepublicana transformam-se, na narrativa para crianças, em simples travessuras de um Robin Hood que roubava para tomar o poder.
A ocupação violenta, como aquela jornada funesta em Pando que deixou um saldo trágico de sangue uruguaio inocente, tratado como custo marginal, desvanece até parecer uma excursão escolar um tanto desorganizada.
As execuções seletivas, o plano sistemático de aniquilação dos adversários e a extorsão pós-sequestro são omitidos com a mesma naturalidade com que se esconde o criminoso debaixo da cama.
Não se trata de um esquecimento casual; é uma amnésia planejada. O objetivo gramsciano por excelência não é buscar a verdade histórica, mas esculpir o senso comum das novas gerações.
Quando se ensina à criança, desde o berço, a venerar o algoz como se fosse um herói nacional da simplicidade doméstica, ela será, como cidadã, incapaz de discernir entre a lei que a protege e a gangue, entre o Estado de Direito e a prepotência armada. Esvazia-se a linguagem de seu conteúdo penal e ela é preenchida por uma afetividade enganosa.
Diante desse adoçamento sistemático, ressoa com absoluta atualidade a lúcida descrição do ex-presidente Jorge Batlle, que definiu com precisão cirúrgica que Mujica “é um destruidor, um vil e perigoso destruidor”, que não constrói nada e cuja vida se especializou em arrasar tudo o que toca.
Batlle recordava como esse impulso destrutivo atuou primeiro tentando derrubar as instituições pelas armas — reconhecendo o próprio fracasso da revolução armada que desencadeou indiretamente a ditadura — para depois continuar minando os hábitos de conduta social, o decoro republicano, o idioma mediante o uso sistemático de expressões grosseiras para degradar a comunicação e a confiança pública na autoridade por meio da permanente contradição de seu discurso. Essa profunda distorção da verdade é o que hoje se tenta inocular, com verniz de conto infantil, no espírito dos mais jovens.
Esse método de engenharia da mente infantil não é uma ocorrência bucólica da margem oriental; faz parte de um manual de doutrinação continental perfeitamente padronizado. É exatamente o mesmo recurso utilizado no norte caribenho com aquele grotesco propagandístico conhecido como as aventuras de “Superbigote”, a história em quadrinhos concebida para transformar o ditador Nicolás Maduro em um super-herói justiceiro e caricaturar a realidade da fome, da repressão e do colapso institucional.
Lá está o boneco de capa e superpoderes que enfrenta vilões imperiais imaginários para ocultar as masmorras reais de El Helicoide; aqui está o bonequinho do avô bonachão e austero que toma mate em uma chácara mal adquirida, despojado de todo prontuário subversivo, da pólvora e do sangue derramado nos anos sessenta.
Mudam as latitudes e os disfarces estéticos, mas a matriz totalitária é idêntica: substituir a história real pelo quadrinho de bronze, transformar o algoz em herói de matinê e sequestrar o discernimento das novas gerações por meio da anestesia da história em quadrinhos militante.
A hegemonia do disfarce. Esse branqueamento sistemático da violência é a vitória póstuma da estratégia insurrecional.
Quando as armas de fogo fracassaram no terreno militar dos anos sessenta e setenta, a mutação cultural assumiu seu lugar. Já não se tratava de tomar delegacias com fuzis roubados, mas de tomar as bibliotecas infantis com histórias moralizantes nas quais o revolucionário fracassado reencarna como um adorável mascote cívico.
O prontuário é escondido porque exibi-lo sem disfarces assustaria qualquer espírito que conservasse um mínimo resquício de decência republicana. Por isso, ele é disfarçado de literatura. Troca-se o amor pela “.45” pela aquarela, e a extorsão e o sequestro pela poesia barata da austeridade fingida.
Para compreender com absoluto rigor a arquitetura desse fenômeno cultural e político, é indispensável analisá-lo por meio dos conceitos que explicam sua profunda eficácia operacional:
A “Batalha Cultural” e a “Hegemonia” saíram dos esfíncteres mentais de um comunista que, depois de ver o massacre de Stalin, estava na prisão em que outro companheiro socialista, depois fascista, il Duce Benito Mussolini, o havia colocado.
Antonio Gramsci escreveu em papéis de cigarro a estratégia metódica destinada a conquistar os valores, a linguagem e o senso comum de uma sociedade a partir das superestruturas culturais e educacionais, consolidando um domínio ideológico anterior à tomada ou ao exercício do poder político.
O processo deliberado de mistificação e hagiografia, que consiste em despojar uma figura pública de sua complexidade histórica e de seus atos criminosos ou violentos para erguê-la como um herói nacional inquestionável, isento de qualquer crítica e protegido por uma lenda dourada.
O eufemismo e a construção narrativa mediante a alteração sistemática do léxico oficial, substituindo termos jurídicos rigorosos por rótulos adocicados — como classificar de “preso político” quem cometeu crimes sob um regime democrático ou chamar de “época sombria” o período de subversão armada — para modificar a carga moral e jurídica dos fatos.
Tudo isso em busca de uma socialização política precoce: a introdução calculada de mensagens ideológicas nos estágios formativos da infância com o propósito de condicionar as futuras percepções cívicas, alcançando a normalização e a validação de condutas à margem do Estado de Direito.
Diante dessa ofensiva sutil, que pretende inocular nos mais jovens a naturalização do crime político transformado em lenda dourada, a única trincheira que permanece de pé é a lucidez crítica.
Desmontar a fábula, arrancar o véu hagiográfico e mostrar às novas gerações que a liberdade não é defendida aplaudindo os violentos de ontem, mas honrando o império inexorável da lei e o respeito sagrado ao próximo.
O restante é, simplesmente, o conto gramsciano do bom-mocismo ideológico, destinado a ocultar o destino final dos povos enganados: a escravidão.
Amnésia histórica planejada
Hegemonia cultural infantil
Branqueamento da violência
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