A partir do colombiano García Márquez e de outros autores, como Rulfo, tende-se a associar o realismo mágico a uma determinada região tropical.
Lugares onde a chuva e o sol se alternam com tamanha intensidade que produzem plantas e comportamentos humanos exuberantes, por vezes até exagerados.
Em rigor, esse movimento literário do século XX não é exclusivo dos trópicos.
Ainda assim, não há dúvida de que essa região produziu, literal e literariamente, frutos notáveis.
É útil recordar algumas características do realismo mágico.
Os elementos fantásticos são percebidos pelos protagonistas como normais.
A realidade e o mágico convergem para um desfecho surpreendente ou inefável.
Os fatos são apresentados como reais, porém inexplicáveis.
O tempo é tratado de forma distorcida, como em um permanente déjà vu.
A atmosfera funde o mítico e o onírico.
Vejamos um exemplo de realismo mágico na literatura de García Márquez.
Remedios ajuda Fernanda a estender a roupa.
“Amaranta percebeu que Remedios, a Bela, estava translúcida por uma palidez intensa.
‘Você está se sentindo mal?’ perguntou.
Remedios, a Bela, segurando a outra ponta do lençol, sorriu com piedade.
‘Pelo contrário’, disse, ‘nunca me senti melhor’.
Mal havia terminado de falar quando Fernanda sentiu um delicado vento de luz arrancar os lençóis de suas mãos e abri-los em toda a sua amplitude.
Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas de suas anáguas e tentou segurar o lençol para não cair, no instante em que Remedios, a Bela, começava a se elevar.
Úrsula, já quase cega, foi a única que manteve serenidade suficiente para identificar a natureza daquele vento irreparável, e deixou os lençóis à mercê da luz, vendo Remedios, a Bela, acenar com a mão, entre o deslumbrante bater dos lençóis que subiam com ela, que deixavam com ela o ar dos besouros e das dálias, que passavam com ela através do ar onde terminavam as quatro da tarde, e que se perderam com ela para sempre nos altos céus.”
(Cem Anos de Solidão)
Até aqui, o que se refere ao realismo mágico. Até aqui?
Comparemos com o juramento prestado pelo comandante Hugo Chávez quando foi reeleito presidente da Venezuela em 2006.
Nos últimos tempos, vimos parlamentares argentinos formular juramentos ao assumir seus cargos que mereceriam figurar em um dicionário do disparate.
Mas isto é uma verdadeira maravilha do realismo mágico.
“Cidadão Hugo Rafael Chávez Frías, o senhor jura, primeiramente, por Deus Todo-Poderoso, jura pelo Povo soberano que o reelegeu, jura pela memória de nossos povos indígenas, jura pela memória de nossos libertadores, jura pela memória dos afrodescendentes, camponeses, mártires e heróis anônimos, jura por sua honra, por sua vida, jura pela Pátria, que não descansará nem dará repouso a seu braço, a seu espírito ou a sua alma até cumprir o mandato que lhe foi dado pelo Povo soberano da Venezuela. Jura cumprir e fazer cumprir esta Constituição e as demais leis da República, jura cumprir todas as funções inerentes ao cargo de Presidente da República da Venezuela?”
A resposta é digna de García Márquez. Talvez ele próprio a tenha escrito.
“Juro diante desta Constituição, desta maravilhosa Constituição, juro diante do senhor, juro por Deus, juro pelo Deus de meus pais, juro por eles, juro por meus filhos, juro por minha honra, juro por minha vida, juro pelos mártires, juro pelos libertadores, juro por meu Povo e juro por minha Pátria que não darei descanso a meu braço nem repouso à minha alma; que entregarei meus dias, minhas noites e minha vida inteira à construção do socialismo venezuelano, à construção de um novo sistema político, de um novo sistema social, de um novo sistema econômico. Juro por Cristo, o maior socialista da história, juro por todos eles, juro por todas as dores, juro por todos os amores, juro por todas as esperanças que cumprirei, que cumprirei os mandatos supremos desta maravilhosa Constituição, os mandatos supremos do Povo venezuelano, ainda que ao custo da minha própria vida, ainda que ao custo da minha própria tranquilidade. Pátria, Socialismo ou Morte. Eu juro.”
Se você chegou até aqui, pela sua paciência, abstenho-me de maiores comentários.
