De Londres a Nova York, uma convergência política cada vez mais visível revela tensões que o Ocidente ainda não consegue explicar.
Em várias de nossas notas nos perguntamos como se explica que a esquerda apareça como defensora dos fundamentalismos islâmicos.
Em outra ordem de coisas, o papa Leão XIV foi recentemente criticado por condecorar o embaixador do Irã junto ao Vaticano com a Grã-Cruz Pontifícia da Ordem de Pio IX. Embora pareçam coisas inexplicáveis, elas não têm, nem de longe, a mesma raiz.
Esse último episódio foi simplesmente vítima da desinformação sistemática que nos inunda.
Não há vínculo algum entre os dois temas.
A combinação da esquerda woke com o islamismo é bastante evidente.
Basta ver como as bandeiras da Palestina e do Irã coincidem com imagens de Guevara em uma marcha LGBT, numa mistura pouco crível.
Por outro lado, a crítica pela condecoração papal ao embaixador está fora de contexto.
O Vaticano tem como prática condecorar os embaixadores que se retiram depois de terem cumprido ao menos dois anos no desempenho de suas funções.
Naquela ocasião, um dos treze a quem correspondia essa distinção era o embaixador do Irã, e ele a recebeu dentro desse conjunto.
Isso supõe uma inclinação pelo regime teocrático em conflito?
De modo algum! Tratou-se de um ato protocolar de rotina.
Mas, sem dúvida, é mais intrigante a mistura entre esquerda e islamismo.
Escrevendo em 1938, Hilaire Belloc referiu-se à civilização muçulmana nos seguintes termos: “essas coisas temporais [a ciência e a guerra modernas] são as únicas que agora nos dão superioridade sobre ela, enquanto na Fé caímos mais baixo que ela.”
Belloc via um ressurgimento islâmico diante “da decadência do cristianismo de hoje”. O historiador sustentava que as culturas surgem das religiões, e que essa concepção do mundo e da vida é o que mantém sua energia.
Assim, afirmava que um Ocidente cada vez mais laicizado estava, em 1938, em vias de dissolução.
Seguindo o Dr. Lorenzo Vidino, PhD ítalo-americano especializado em Islã e autor de vários trabalhos sobre o tema, vejamos esse interessante e curioso processo.
Desde a década de 1950, observa Vidino, o islamismo fascina amplos setores da esquerda ocidental.
As posições anticoloniais, sua rejeição ao que entende como imposições dos ocidentais, sua postura antiamericana e antissionista fizeram com que a esquerda olhasse para o islamismo com simpatia.
A ideia de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, embora essa sentença deva ser aceita com reservas, levou a esquerda à ideia de buscar uma aproximação.
No início da década de 2000, isso se tornou realidade.
A Stop the War Coalition, uma organização pacifista britânica liderada por socialistas e comunistas, diz Vidino, buscou integrar a Muslim Association of Britain às suas atividades.
Depois da disputa interna produzida pela inesperada proposta, e é fácil compreender como deve ter sido difícil para os muçulmanos concertar uma aliança com marxistas, ateus e homossexuais, prevaleceu um critério pragmático e a proposta foi aceita.
Não obstante, reservaram-se o direito de manter sua própria agenda, condicionando o acordo à “presença de comida halal, alojamento respeitoso da fé e reuniões e manifestações separadas por gênero.”
Os dirigentes da Stop the War Coalition aceitaram as condições apesar da resistência de certos setores.
O acordo chegou inclusive a fundar um partido político.
Nos últimos vinte e seis anos, alianças semelhantes ocorreram em diversos países ocidentais.
Embora nem todos os islâmicos que chegam a posições de governo provenham de partidos de esquerda, os perfis se tornaram tão indefinidos que muitas vezes é difícil discernir quais são posições de esquerda e quais não são.
Assim, em janeiro de 2026, o socialista muçulmano Zohran Mamdani conquistou a prefeitura de Nova York, o que levou o ex-presidente Obama a afirmar que “o futuro parece um pouco mais promissor”, embora não tenha esclarecido para quê.
Em Londres, o trabalhista Sadiq Khan foi reeleito prefeito pela terceira vez em maio de 2024. Muçulmano praticante, ele não apenas votou, como membro do Parlamento em 2013, a favor do “casamento igualitário”, como também, na condição de prefeito, preside o desfile do London Pride.
Mas a explicação seria incompleta se não contivesse como a esquerda fez sua a cultura woke, para depois irradiá-la aos muçulmanos.
Veremos isso na próxima nota.
A convergência entre esquerda ocidental e islamismo político.
O antiamericanismo e o antissionismo como pontes ideológicas.
A crise cultural do Ocidente como pano de fundo.
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