Como uma concepção científica da moral ajudou a moldar um dos maiores projetos ideológicos da modernidade.
À fraternidade pela revolução
Uma nomenclatura é um catálogo de nomes próprios.
Aplicada ao sistema viário, consiste em atribuir nomes às ruas e aos espaços públicos.
Isso poderia ser feito apenas com números, facilitando a orientação, mas tradicionalmente preferiu-se utilizar nomes de pessoas ou de acontecimentos históricos para homenagear aqueles cujas contribuições à sociedade são consideradas dignas de memória.
Entretanto, essa questão de “quem é quem” admite mais de uma leitura.
Assim, a contribuição supostamente destinada à memória coletiva acaba assumindo coloração partidária, confirmando a conhecida observação de Alberto Zum Felde de que a história não existe; tudo é política.
Desse modo, a construção da memória frequentemente torna-se parcial, e um agitador comunista que se apresentava como estudante, chamado Liber Arce, morto enquanto integrava um grupo que atacava um policial, transforma-se em um “mártir estudantil”.
É essa narrativa que a esquerda procura transmitir aos estudantes secundaristas, que todos os anos recordam um episódio recoberto por uma espessa camada de maquiagem histórica.
A “memória” converte-se, assim, em instrumento de luta política, enquanto a nomenclatura urbana passa a ser apenas um pretexto.
Esses mesmos jovens conhecem a “história” dessa rua por meio da narrativa da esquerda, mas ignoram o significado da grande maioria das demais denominações das ruas e dos espaços públicos.
E não apenas os jovens.
Por exemplo: quantas pessoas que moram na Rua Marcelino Berthelot sabem realmente quem foi esse homem?
Ruas com esse nome existem em abundância na França, mas também em Montevidéu e, ao menos, na cidade argentina de Córdoba.
Era ele um cientista ou um filósofo?
A mesma pergunta foi feita pelo sábio uruguaio Clemente Estable em 1927, escrevendo na revista La Pluma, embora, naquele caso, a pergunta fosse apenas retórica.
Berthelot foi as duas coisas e também político.
Mas concentraremos nossa atenção em sua posição filosófica.
Semeando a semente
Em 1906, a editora catalã Granada y Ca. publicou, sob o título Ciência e Moral, alguns dos escritos de Berthelot sobre filosofia, ciência e moral.
Na apresentação editorial, afirma-se que o autor “contribuiu para semear a semente da emancipação do homem, ainda condenado ao rochedo estéril do atavismo religioso, coberto pela crosta da ignorância”, entre outras expressões.
Convencido do poder da ciência, o sábio francês sustentava que a moral não possui outros fundamentos além daqueles oferecidos pela própria ciência.
O progresso da moral sempre foi, e continuará sendo, proporcional ao progresso da ciência.
Toda moral consiste em “nossa humilde submissão às leis necessárias do mundo”.
Poderíamos acrescentar: leis sem legislador; relógio sem relojoeiro.
Seguindo Kant, afirmava que as ideias do bem e do mal residem no fundo da consciência humana.
O homem encontra a moral em si mesmo e depois a objetiva atribuindo-a à divindade.
Naturalmente, conclui com uma defesa da Revolução Francesa e de sua “nova moral social”, que proclamou os princípios igualitários.
Insiste:
“Não se deve acreditar que o desaparecimento de toda hipótese teológica inaugurará o reino do crime e da anarquia.”
Porque nem a espiritualidade nem a moralidade sofreriam qualquer abalo.
Assim ficaria aberto o caminho para “o reino ideal da fraternidade e da solidariedade social proclamadas pela Revolução”.
O mesmo propósito de alcançar esse paraíso terreno por meio da violência revolucionária seria retomado por diversos movimentos políticos ao longo do século XX.
Mas Berthelot pensava um pouco mais adiante.
Veremos isso no próximo artigo.
Memória histórica
Moral científica
Revolução Francesa
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