Reformas estruturais, inserção internacional e modernização estatal para sustentar a coesão social no século XXI.
Uruguai diante do compromisso com o futuro
Reformas estruturais e coesão social para o Uruguai do século XXI
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
Introdução: O desafio da maturidade institucional
O Uruguai foi, ao longo de sua história republicana, um exemplo de civilidade, estabilidade institucional e apego irrestrito às normas de convivência democrática. Aqueles de nós que tiveram o privilégio de percorrer o mundo e observar as complexidades do desenvolvimento em diversas latitudes voltam o olhar para a nossa pátria com um profundo sentimento de gratidão por esses ativos intangíveis.
A paz social, a segurança jurídica e o respeito pelo pluralismo não são bens menores; são os alicerces sobre os quais se edifica qualquer projeto nacional digno desse nome.
No entanto, a complacência é o maior inimigo do progresso.
Não podemos ignorar que nossa economia carrega, há décadas, uma limitação estrutural preocupante: um crescimento potencial que se situa persistentemente em torno de 1,5% a 2% ao ano.
Em um mundo caracterizado por uma aceleração tecnológica sem precedentes e por uma reconfiguração vertiginosa dos fluxos comerciais, um ritmo de marcha tão parcimonioso nos condena à irrelevância e, o que é mais grave, restringe severamente nossas possibilidades de oferecer canais genuínos de ascensão social para as novas gerações.
A verdadeira equidade não nasce da distribuição voluntarista de uma escassez compartilhada, mas da criação de uma sociedade de oportunidades onde o talento, o esforço e a iniciativa de cada cidadão possam se desenvolver em toda a sua magnitude.
Para consolidar uma economia dinâmica e uma mobilidade social ascendente, o Uruguai deve enfrentar um conjunto de reformas profundas com audácia, pragmatismo e uma visão de longo alcance.
É momento de formular um novo pacto de modernização que conjugue a eficiência econômica com uma profunda sensibilidade humana.
A inserção internacional e a competitividade: Romper as amarras do isolamento
Nenhum país de dimensões demográficas reduzidas alcançou o desenvolvimento olhando para o próprio umbigo. A escala do nosso mercado interno é intrinsecamente limitada, o que nos obriga a conceber o mundo como nosso espaço natural de expansão econômica.
A história econômica demonstra de maneira inequívoca que a abertura externa e a exposição à concorrência global são os dinamizadores mais potentes da produtividade e da inovação.
Em primeiro lugar, devemos abordar com realismo e grandeza de visão nossa situação no concerto regional.
O Mercosul, que nasceu com uma vocação integradora e um espírito ambicioso de complementaridade, ficou preso a rigidezes burocráticas e tensões políticas que limitam nossa liberdade de manobra.
O Uruguai precisa impulsionar de maneira decidida e construtiva a flexibilização do bloco. Não se trata de renegar nossa vizinhança geográfica nem nossos laços históricos, mas de compreender que a diplomacia comercial moderna exige agilidade. Devemos tecer alianças bilaterais e acordos de livre comércio diretos com as regiões mais dinâmicas do planeta, tanto no Sudeste Asiático quanto na Europa e nas Américas.
Em segundo lugar, a abertura externa carece de sustentabilidade se não vier acompanhada de um choque de competitividade interna.
O Uruguai sofre de uma persistente enfermidade de altos custos fixos que sufoca nossos produtores, exportadores e, de maneira muito particular, o pequeno empreendedor que tenta abrir caminho. Essa realidade está intimamente ligada à existência de estruturas de mercado fortemente reguladas, oligopólios protegidos e monopólios estatais ou privados que perderam o estímulo da concorrência.
É imperativo desregular setores-chave como energia, combustíveis e serviços logísticos. Introduzir concorrência não significa desmantelar os patrimônios públicos, mas exigir deles os mais altos padrões de eficiência internacional para que deixem de atuar como um imposto encoberto sobre a produção nacional.
A livre concorrência é, em última instância, o mecanismo mais democrático de alocação de recursos, pois destrói os privilégios corporativos e reduz o custo de vida das famílias uruguaias.
A revolução tecnológica e a nova governança estatal
O Estado uruguaio foi historicamente o grande articulador da sociedade, um amortecedor de tensões e um garantidor de serviços essenciais.
Essa tradição de amparo público faz parte da nossa identidade. No entanto, o aparelho estatal não pode se transformar em um fim em si mesmo nem em uma pesada carga a ser suportada pelo setor privado.
A modernização da gestão pública não é uma bandeira ideológica; é um imperativo de justiça social e de sobrevivência econômica.
A administração pública deve ingressar plenamente na era digital por meio do que denominamos “revolução agêntica”.
A incorporação de sistemas de inteligência artificial autônoma e tecnologias de registro distribuído, como o blockchain, oferece uma oportunidade histórica para refundar a relação entre o cidadão e o Estado. Essas ferramentas permitem avançar rumo a uma transparência absoluta, onde a execução orçamentária, as contratações públicas e a alocação de subsídios possam ser auditadas em tempo real.
Ao automatizar os processos burocráticos e eliminar os trâmites redundantes que adormecem a iniciativa privada, reduzimos drasticamente as margens para a discricionariedade administrativa e as prebendas corporativas.
Um Estado ágil e digitalizado é um Estado que devolve poder à sociedade civil.
Da mesma forma, essa eficiência interna deve convergir com uma rigorosa disciplina macroeconômica.
É fundamental consolidar uma regra fiscal cuja bússola principal esteja alinhada ao nível real de endividamento e à sustentabilidade intergeracional do país.
Quando o Estado gasta acima de suas possibilidades reais, acaba absorvendo o crédito genuíno de que o setor privado — agricultores, industriais, comerciantes, criadores de software — necessita para investir e gerar empregos de qualidade.
Manter a saúde das finanças públicas é o resseguro da nossa soberania econômica e a garantia de que não financiaremos o bem-estar presente hipotecando o futuro de nossos filhos.
Continuaremos desenvolvendo estes conceitos para impulsionar uma verdadeira mudança harmônica e possível.
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