Uma reflexão sobre a cultura política que consolidou a estagnação econômica e social no Uruguai.
– Cultura política e construção da estagnação
– A economia do subsídio e a reprodução da dependência
– Igualdade na escassez e medo da liberdade responsável
O Uruguai é um país profundamente disfuncional para crescer econômica e socialmente. Parece cultivar seu próprio subdesenvolvimento como uma espécie de identidade nacional.
Um lugar onde Marx, onde quer que esteja, talvez comemorasse que esquerda e oposição continuem juntas avançando em direção à sua utopia igualitária miserável.
E onde Gramsci talvez lamentasse que a batalha cultural tenha ficado nas mãos de inúteis, tímidos e convertidos, que privatizaram a luta enquanto estatizaram o capital em uma cooperativa oligárquica de extração.
Avançar rumo ao subdesenvolvimento cultural, mental e econômico tornou-se tarefa assumida pelos integrantes de uma casta política dividida entre aqueles que fingem governar e aqueles que fingem se opor sem impedir nada.
Para financiar a eleição dessa casta, surgem subcastas que aspiram a subsídios, benefícios fiscais, empréstimos não reembolsáveis e recursos do tesouro público.
Cada grupo espera salvar-se individualmente enquanto todos perdem terreno coletivamente.
Desde os anos 1920 o Uruguai cultivou uma classe social peculiar que reproduz continuamente sua incapacidade de realizar qualquer atividade produtiva.
Indivíduos que, ao entrar em uma lista eleitoral, conseguem superar sua condição inicial de pobreza e passam a viver permanentemente do esforço de seus concidadãos.
Essa cultura, cuidadosamente trabalhada pelo marxismo e pelo gramscismo, produziu um eleitorado que absorveu a linguagem dialética mas inverteu seu significado.
Receberam a tese de Marx quase por osmose inversa.
Vivem estagnados na antítese — em contradição com a realidade — e militam fanaticamente sua própria síntese — a negação da negação.
Hegel provavelmente os repreenderia por não avançarem rumo à reconciliação superior que a dialética prometia.
Sempre insatisfeitos por não serem ricos — e sem disposição para trabalhar para isso — exigem transformações utópicas para superar a pobreza sem assumir a disciplina necessária para fazê-lo.
Assim constroem “direitos adquiridos” sobre o esforço daqueles que ainda trabalham, aproximando a sociedade de uma nova forma de servidão.
Ao exigir que se tire riqueza daqueles que produzem, garantem eleitores fiéis que continuarão votando neles mesmo quando se propõem medidas absurdas como congelar preços e salários.
O tempo, esse outro nome do esquecimento, tem sido particularmente cruel com as planícies orientais.
Desde os anos 1920 o Uruguai aperfeiçoou a arte da escassez e a elevou à categoria de patrimônio nacional.
Talvez seja hora de analisar esse fenômeno como uma verdadeira arqueologia da estagnação.
