Citizens facing the consequences of political decisions in a democratic society

A Chantagem dos Inimputáveis

Como a irresponsabilidade eleitoral e a demagogia política transferem os custos do fracasso para aqueles que tentam evitar o colapso institucional.

A CHANTAGEM DOS INIMPUTÁVEIS
O sequestro da sensatez: o perverso negócio da irresponsabilidade política
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano

Existe uma anomalia no funcionamento de nossas democracias contemporâneas que a ciência política prefere maquiar sob o nobre conceito de “soberania popular”, mas que na prática opera como um mecanismo de extorsão institucional.
Refiro-me à perfeita e indignante impunidade que cerca tanto o governante demagogo quanto o eleitor irresponsável, uma dinâmica perversa em que os cacos da festa populista acabam sempre sobre a mesa daqueles que advertiram sobre o desastre.
O ciclo é tão previsível quanto macabro.
Um candidato promete mundos e fundos, soluções mágicas para problemas estruturais complexos que ignora deliberadamente por conveniência eleitoral. O cidadão, movido pelo voluntarismo ou pela simples preguiça intelectual, compra a quimera.
Aqui opera aquilo que o economista Bryan Caplan denominou com lucidez de “irracionalidade racional”: como o voto individual raramente decide uma eleição, votar não possui um custo econômico ou penal direto para quem o exerce.
O eleitor sente-se com direito à inimputabilidade.
Pode votar na maior das aberrações fiscais ou institucionais com base no estômago ou no preconceito, sabendo que, se tudo explodir, a culpa será diluída na massa coletiva.
O “erro” político sai de graça nas urnas.
Mas o verdadeiro drama começa quando esse dogma colide com o muro da realidade.
Quando as políticas insustentáveis começam a esvaziar os cofres públicos, a descontrolar a inflação de preços, a tornar ilusório o poder de compra de parte do salário consumido pelo fisco e a aprofundar benesses supostamente ligadas à “justiça social”.
O governo de turno não recua; dobra a aposta, amparado pela legitimidade de origem concedida pelas maiorias desses eleitores inimputáveis, irresponsáveis ou aspirantes a compartilhar a corrupção estatal.
É nesse momento que se ativa uma das armadilhas mais injustas do sistema: a chantagem à oposição.
Sob a lógica do risco moral — conceito amplamente analisado pela teoria da Public Choice — os governantes irresponsáveis sabem que a oposição séria, aquela que conserva noções mínimas de República e estabilidade, não pode se dar ao luxo de assistir passivamente ao país cair no abismo.
Para evitar o aprofundamento de uma crise humanitária ou um default destrutivo, a oposição vê-se obrigada a consensuar, votar o “mal menor”, tolerar incompetentes em cargos importantes, proteger o argumento de que “o outro é pior” e sustentar uma governabilidade ruim que o próprio oficialismo sabota por dentro para satisfazer suas disputas internas.
Os sensatos ficam encurralados: se ajudam a evitar o colapso, salvam o governo de seu próprio fracasso; se se recusam, são acusados de “desestabilizadores” e responsabilizados pela crise.
Uma das características mais evidentes desse tipo de inúteis colocados no poder por essa velha irresponsabilidade é o constante chamado à colaboração da oposição.
O irresponsável conduz o carro em direção ao precipício sabendo que o copiloto racional acionará os freios por ele.
A culminação dessa farsa, contudo, ocorre no terreno da narrativa, e ninguém desmontou melhor esse mecanismo do que Albert O. Hirschman em suas teses sobre a retórica da intransigência.
Quando a inevitável estagnação, o declínio ou a mediocridade da gestão tornam-se impossíveis de ocultar, o roteiro populista aciona a retórica da sabotagem: “Não nos deixaram governar”.
A culpa pelo fracasso jamais recai sobre a inviabilidade das promessas originais, mas sobre as “forças obscuras”, a máquina de impedir da oposição ou os limites institucionais que impediram o aprofundamento do modelo.
Tornam-se absolutamente inimputáveis por suas ações, ameaçando que seus substitutos seriam ainda piores porque aprofundariam os efeitos destrutivos de suas próprias propostas ideológicas.
É uma pirueta retórica perfeita.
Ao deslocar a responsabilidade para o adversário que precisa salvá-los do desastre para não afundar o país, o governo não apenas limpa sua culpa, como reinicia a ilusão.
A divisão democrática entre maioria e minoria, que deveria cooperar dentro das instituições, transforma-se numa chantagem absurda: “Vejam que podemos fazer algo ainda pior ao país”.
Aceitar qualquer chantagem tem consequências.
E, neste caso, a pior de todas é obscurecer, ocultar ou diluir a responsabilidade de um governo desastroso, compartilhando aquilo que deveria ser uma responsabilidade intransferível: governar para o bem comum ou expor a crueldade do discurso enganoso que levou parte do eleitorado a acreditar que a ilusão circense poderia ser real.
Se determinadas soluções impossíveis foram prometidas desde o início; se o governo chegou ao poder democraticamente e não dispõe de pessoas competentes apesar de slogans como “o governo dos melhores” ou “que governe a honestidade”, não se pode exigir que aqueles que possuem a obrigação constitucional de fiscalizar suavizem sua auditoria apenas porque os suplentes seriam ainda mais radicais, mentirosos ou inclinados à apropriação indevida.
Esse risco coloca aqueles que discordam das políticas econômicas e sociais na categoria da “casta”, e eles acabarão pagando suas consequências.
Se foram eleitos para governar porque sua proposta foi a que conquistou mais votos, então que governem e assumam integralmente a responsabilidade pelas consequências de suas ações.
Assim se expõe verdadeiramente perante a cidadania o custo de oportunidade da escolha dos governantes.
Caso contrário, nasce a falácia da segunda oportunidade: “Se voltarmos e desta vez recebermos todo o poder, então finalmente realizaremos as mudanças prometidas”.
O trágico é que o eleitor inimputável, num esforço desesperado para proteger seu próprio ego e evitar admitir que foi enganado, volta a comprar o argumento.
Manter uma república de pé sob essas regras do jogo é uma tarefa quixotesca.
Enquanto o sistema político recompensar a narrativa vitimista e punir a responsabilidade fiscal e institucional, continuaremos assistindo ao mesmo espetáculo perturbador: minorias ruidosas destruindo o futuro sob o olhar cúmplice de maiorias que reivindicam o direito de não assumir responsabilidade por suas próprias decisões.
Pelo bem de todos: deixem que o eleitor assuma sua responsabilidade; deixem que o governo exponha em toda a sua crueza que não possui um rumo superior; que queria chegar ao poder simplesmente para enganar aqueles que votaram nele e aqueles que precisam suportá-lo por imposição democrática.

Responsabilidade Política
Risco Moral
Demagogia Eleitoral

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