Abandoned industrial infrastructure contrasting with an active urban economy in Uruguay.

O Preço do Ilusionismo: Quando a Demolição do Estado se Torna uma Dívida Intergeracional

Segundo o autor, o peso fiscal das decisões políticas e empresariais tomadas entre 2010 e 2015 continua recaindo sobre as finanças públicas do Uruguai e sobre as futuras gerações.

O PREÇO DO ILUSIONISMO
Quando a Demolição do Estado se Torna uma Dívida Intergeracional
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano

Há uma perigosa tentação na política contemporânea de dissociar a narrativa épica da dura materialidade contábil da gestão pública.
Durante anos, construiu-se uma narrativa em torno da administração do ex-presidente José Mujica (2010–2015), centrada na austeridade pessoal de seu líder — um revestimento simbólico que serviu para anestesiar a atenção pública diante do maior ciclo de drenagem de recursos fiscais da história econômica recente do Uruguai.
Sob o dogma do voluntarismo industrialista do planejador ignorante e uma matriz de inspiração subversiva orientada para a desarticulação institucional, comprometeram-se recursos públicos colossais que hoje não apenas configuram uma perda líquida irreparável, como também se projetam impiedosamente sobre todos os cidadãos, especialmente os economicamente marginalizados, sob a forma de dívida pública e pesados encargos financeiros com seus respectivos juros.
O pano de fundo subversivo: A demolição sistemática das estruturas institucionais
O dano econômico infligido aos uruguaios não foi um simples acidente de gestão nem o produto de uma série de erros técnicos equivocados; segundo o autor, respondeu a uma profunda matriz ideológica. Por trás dos megaprojetos fracassados, do desperdício abusivo de recursos públicos e do esvaziamento das empresas estatais, operava uma intenção de raiz anárquica: a busca deliberada de minar os alicerces do Estado de Direito liberal, corroer a autoridade das normas econômicas e provocar uma desorganização social de proporções devastadoras.
Quando se desprezam os equilíbrios fiscais, se atropelam os contratos jurídicos e se utilizam as alavancas do poder político para realizar experimentos coletivistas à margem do cálculo econômico, o objetivo não é a eficiência do Estado, mas seu colapso gradual.
As corporações estatais monopolistas foram esvaziadas por dentro para servir a interesses facciosos, transformando a administração pública em um espólio da improvisação ideológica destinado a abalar os alicerces da institucionalidade “burguesa”, sem qualquer preocupação com as ruínas financeiras deixadas em seu caminho.
O mapa do esvaziamento: Um bilhão e meio de dólares perdidos
A conta das iniciativas ruinosas e da negligência administrativa não é uma abstração contábil; representa empregos destruídos, hospitais que deixaram de ser equipados, escolas degradadas que permaneceram abandonadas, incentivo à informalidade, perda de direitos dos mais vulneráveis e uma pressão tributária sufocante sobre os contribuintes que geram os recursos posteriormente utilizados para cobrir monumentais buracos negros.
Não são apenas números; são pessoas devastadas, vidas despedaçadas e a insensatez beirando a loucura da hybris de sentir-se senhor absoluto do destino dos governados.
O colapso da ANCAP: A petrolífera estatal exigiu uma recapitalização e absorção de passivos aprovadas pelo Parlamento, próximas de US$ 900 milhões. Custos excessivos injustificados, fábricas deficitárias de cimento Portland e uma gestão descontrolada traduziram-se em uma hipoteca direta sobre o patrimônio nacional.
O fiasco da Gas Sayago e da regaseificação: Uma quimera energética que jamais injetou um único metro cúbico de gás e deixou perdas líquidas superiores a US$ 215 milhões em liquidações, manutenção estéril e arbitragens internacionais perdidas contra fornecedores.
O pesadelo da PLUNA: A liquidação improvisada da companhia aérea de bandeira deixou inicialmente US$ 137 milhões em dívidas e garantias executadas, aos quais se somaram, ao longo dos anos, mais de US$ 80 milhões em condenações definitivas e custas processuais determinadas por tribunais arbitrais internacionais (CIADI).
Os acordos com a Venezuela e a PDVSA: O mecanismo comercial concebido sob afinidades político-ideológicas com a estatal venezuelana terminou obrigando o Estado uruguaio a resgatar e liquidar passivos de US$ 262 milhões, comprometendo recursos públicos por meio de um fideicomisso opaco. Além disso, transferiu-se para uma cooperativa de laticínios o peso de uma dívida superior a US$ 30 milhões.
O escoamento do FONDES e outros desatinos: Mais de US$ 50 milhões desperdiçados em créditos incobráveis para projetos “cooperativos” e “autogeridos” inviáveis financiados pelo BROU, somados aos milhões evaporados em consultorias e desapropriações fracassadas para o Porto de Águas Profundas e os trilhos abandonados do malogrado Tren de los Pueblos Libres.
O custo de oportunidade: A tragédia moral da pobreza infantil
Para dimensionar a verdadeira magnitude dessa dilapidação, basta compará-la com as prioridades sociais que hoje dominam a agenda pública.
Quando integrantes do atual governo de esquerda — no qual o setor político de Mujica detém a maior força e influência — mencionam cifras relativamente modestas, como os US$ 30 milhões necessários para enfrentar o grave problema de uma pobreza infantil de 25%, o contraste torna-se moralmente insuportável.
Se os recursos que, segundo o autor, foram desperdiçados por Mujica em aventuras corporativas e experimentos ideológicos — um piso conservador superior a US$ 1,6 bilhão — estivessem disponíveis, o Uruguai não apenas poderia ter erradicado completamente essa tragédia social e assegurado o futuro de várias gerações de crianças, como ainda disporia de capital para transformar a infraestrutura educacional do país.
O custo de oportunidade daquela administração traduz-se em um paradoxo cruel: os mesmos setores políticos que hoje exigem recursos para aliviar a vulnerabilidade infantil foram, segundo o autor, aqueles que, quando estavam no poder, queimaram o equivalente a mais de cinquenta orçamentos capazes de resgatar essas mesmas crianças da pobreza nas fogueiras da ineficiência e do descontrole fiscal.
E hoje, afirma o autor, um Mujica redivivo impulsionou a destinação de outros US$ 32,5 milhões para outro projeto considerado disparatado: dividir uma estância produtiva em seis minifúndios em sua homenagem. Agora, reclamam da insuficiência dos mesmos US$ 30 milhões novamente imputados ao custo de oportunidade do país para as crianças pobres.
A projeção perversa: Capital, juros e o peso sobre os contribuintes
Quando se fala em um piso consolidado entre US$ 1,6 bilhão e US$ 1,65 bilhão em perdas diretas, a sociedade costuma cometer o erro de enxergar essa cifra como uma fotografia estática do passado. A realidade institucional e financeira é muito mais dramática.
Os governos não financiam esses prejuízos corporativos com recursos inexistentes nem com poupanças correntes do setor público; financiam-nos mediante a emissão de dívida pública.
Cada dólar injetado para salvar a ANCAP, cada condenação internacional paga em decorrência das decisões equivocadas relacionadas à PLUNA, cada passivo energético liquidado com a Venezuela daquela época e até mesmo a estância María Dolores traduziram-se em emissões de títulos soberanos e endividamento interno com prazos previamente estabelecidos.
Isso significa que ao capital perdido devem ser somados o serviço da dívida e os juros acumulados ano após ano — um fardo financeiro pago religiosamente pelos uruguaios por meio dos impostos sobre o consumo, o trabalho e a produção. Trata-se de um peso que compromete o crescimento econômico projetado e ilusório sobre o qual, segundo o autor, a esquerda irresponsável planejou seus gastos com intenção destrutiva.
É a conta final de uma estratégia que combinou incompetência econômica com o desígnio subversivo de dinamitar as regras da ordem republicana.
Segundo o autor, o Estado confiscou abusivamente a riqueza do setor produtivo privado para financiar sua própria demolição e negligenciar os dramas mais graves da sociedade, condenando as gerações futuras a pagar em dinheiro pelos estragos de uma revolução fracassada.
Veremos também os juros que todos os uruguaios continuam pagando — um custo adicional que, segundo o autor, é imputável a uma “infâmia suprema” daqueles que hoje pretendem apresentar “meu amigo Pepe” como defensor das crianças pobres.

Custo de oportunidade
Dívida pública
Instituições republicanas

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