Anonymous elderly man standing at a doorway in a Montevideo neighborhood at dusk as a bus and motorcycle pass nearby.

Don Evaristo e o «diálogo construtivo» com a oposição


Uma entrevista satírica sobre o diálogo político, a segurança, a dívida e os problemas que, segundo Don Evaristo, continuam fora da mesa.

ENTREVISTA COM DON EVARISTO

Sobre o construtivo diálogo com a oposição
Boa tarde, Don Evaristo!
Venha aqui um segundinho até a porta, antes que escureça e isso aqui fique complicado.
Conte para mim, como viveu essa grande cúpula entre a oposição e Yamandú Orsi? Sentiu que a sua vida mudou ao ver os partidos mandando seus delegados para conversar?
—Olhe, m’hijo, a única coisa para a qual serviu essa reunião de notáveis foi para me darem um diploma de idiota oficial! O que quer que eu diga? Mandaram os representantes fazer alta diplomacia de comitê, sentar com o governo, tomar mate e fumar o cachimbo da paz na maior boa vontade… puro teatro de bairro de quarta categoria! Enquanto eles discutem em uma mesa de vidro se o diálogo institucional é “republicano e construtivo”, eu saio até a esquina para comprar pão e me matam três vezes no mesmo trajeto, porque aqui no bairro a área está mais liberada do que corso de carnaval. Se um assaltante de moto me pegar, vou dizer para esperar a rodada de diálogo multipartidário terminar, para ver se ele fica com pena e me rouba com perspectiva de gênero!
—Bom, Don Evaristo, pense no futuro, nos seus netos…
—Que meus netos, m’hijo? Já hipotecaram meus netos até a quinta geração com a emissão brutal de dívida pública que estão fazendo! Vão nascer devendo em dólares até as fraldas dos bisnetos! Emitem papel como se fosse confete de fim de ano e depois dizem que a economia vai de vento em popa. Que vento em popa o quê, se a única coisa que flutua são os títulos do Tesouro que nos enterram em impostos! E veja bem, eu sou um fiel aposentado de vinte e cinco mil pesos, daqueles que seguram a bandeira com a aposentadoria em pedaços, vendo o dinheiro evaporar.
—Mas, homem, com certeza nessa mesa de diálogo eles se plantaram firme nos temas pesados, como a fazenda “María Dolores”, ou o salvamento da Caixa Profissional e do CASMU…
—Vão se plantar onde, m’hijo?! Disso, nem uma palavra! Não viu que não apareceu nenhuma crítica firme? Nem o quero-quero grita e esconde os ovos tanto assim! Ninguém disse uma palavra séria sobre a compra da famosa fazenda “María Dolores”, que nos custou uma fortuna enquanto aos aposentados dão migalhas. E a Caixa Profissional? Um barril sem fundo! Salvam o CASMU aos trancos e barrancos, metendo a mão na mesma lata de sempre, enquanto os problemas estruturais continuam ali, intocáveis, porque os rapazes da política deixam até o queixo cair de vergonha para não tomar nenhuma medida de fundo.
—Enfim, Don Evaristo, o que diria então a toda essa dirigência que acha que só por sentar para conversar já cumpriu com a pátria?
—Que guardem os sanduíches de pão de forma e as atas de entendimento, m’hijo. Que guardem tudo numa gaveta e venham morar uma semaninha aqui na esquina, para ver se, com algumas balas zunindo ao lado da orelha, continuam achando que o “diálogo construtivo” enche a nossa panela ou nos salva do caixão. Um abraço e guarde o revólver, que o ônibus já vai passar!
Espere, espere, Don Evaristo, não desista de mim! Mas imagino que, com tanta proposta e exigência da oposição, alguma proposta séria deve ter saído…
—Proposta séria? M’hijo querido, todos os planteos que levam para essas mesas de diálogo são uma puta idiotice cósmica! Vivem flutuando numa nuvem de peido institucional, tirando sarro de todos nós.
—Por que diz isso, Don Evaristo? Ao que se refere?
—Vamos ver se acordamos! Alguém em sã consciência acredita que Yamandú Orsi vai convencer os comunistas a começarem a criticar as ditaduras de Cuba e da Nicarágua, se esses regimes são os ídolos de cabeceira de metade do partido? Por favor! Eles arrancam os próprios dentes antes de repudiar os seus santos padroeiros! Ou acham que Orsi vai à ONU, entrar de sola e exigir eleições já na Venezuela? Vão ficar mudos como estátuas de praça pública!
—Bom, mas em nível nacional talvez travem com mais firmeza as obras ou a segurança…
—Sim, claro! Vai travar o quê? Você acha que Edgardo Ortuño vai recuar ou deixar de fazer a barragem de Casupá, mesmo que com isso enterre todo o departamento de Florida debaixo d’água e nos deixe com a barragem largada no meio do deserto? Eles estão pouco se lixando para o departamento! Ou acha que o “Negro” vai aceitar que a guerra perdida contra os narcotraficantes seja interrompida por umas míseras buscas noturnas? Estão ali só de enfeite!
—E olhe que ainda falta o melhor…
—Ah, nem fale, m’hijo, nem fale das ridicularias de Andrés Ojeda! Saem exigindo, com cara de indignados, que por favor protejam os promotores que recebem granadas na porta e são alvejados sem parar, enquanto os guardas da escolta ficam do outro lado tomando mate ininterruptamente, como se estivessem numa roda de amigos em um domingo na rambla! É uma comédia trágica, m’hijo! Uma gozação do começo ao fim! Vão trabalhar e parem de falar besteira!

Diálogo político
Segurança e narcotráfico
Dívida e gasto público

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