Retrato de uma sociedade transbordada pela permissividade institucional, pela impunidade burocrática e pela erosão da responsabilidade pública
CRÔNICA DO DESVARIO IMPUNE
Retrato de uma Sociedade Transbordada
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
Há uma distância abissal entre a teoria da anomia, a esquizofrenia social induzida e sua manifestação cotidiana.
Quando a permissividade institucional se transforma no pulso predeterminado de um país, os fatos trágicos deixam de ser anomalias para se transformarem em elos de uma mesma cadeia.
O verdadeiramente perturbador não é o delito isolado, mas o álibi burocrático que o abriga: o sistema sempre cumpre formalmente os protocolos, expede declarações de irrepreensibilidade, mas os resultados são sempre fatais, os culpados desaparecem na nebulosa administrativa e os cidadãos ficam ao relento.
O Uruguai recente oferece uma galeria aterradora dessa esquizofrenia institucional, em que a tragédia se dissolve em desculpas corporativas e tecnicismos.
O protocolo como álibi e a impunidade de gabinete
Os exemplos se acumulam diante da passividade dos mecanismos de controle.
Aí estão os assaltos e roubos de manual —como a invasão ao BROU, em que a gerência-geral sentencia pomposamente que “todos os protocolos foram cumpridos”, apesar de as câmeras misteriosamente não terem funcionado, os ladrões terem demonstrado uma torpeza titânica e o dinheiro acumulado que os estava esperando jamais aparecer, deixando os verdadeiros responsáveis, que se supõe corresponderem aos criminosos, apenas tangenciados por uma falta menor.
Ou os episódios de violência extrema que sacodem os ambientes acadêmicos, como o brutal atentado sofrido por uma aluna dentro da própria Faculdade de Medicina, onde o agressor contou com todas as facilidades de entrada e circulação diante da cegueira preventiva das estruturas que deveriam ter protegido o espaço comum.
Onde há banheiros compartilhados que colocam as estudantes em risco de entrar em contato com aqueles que prolongam o diálogo no sanitário.
Mas tudo está sob controle, segundo o Decano.
A paralisia por covardia política e a demografia na contramão
Quando o dano econômico e social sufoca o país —como na extensa e extorsiva greve portuária que paralisa a produção nacional— ninguém se atreve a exercer a autoridade legítima nem a declarar a essencialidade dos serviços, pelo pânico reverencial aos custos corporativos ou à renúncia preventiva de um ministro.
Paralelamente, enquanto um dos problemas nacionais mais graves é a vertiginosa queda da taxa de natalidade, as prioridades do Estado se invertem de forma esquizofrênica: da própria subsecretaria de Saúde Pública impulsiona-se a flexibilização das condições para o aborto local e turístico, incentivando a contração demográfica sob os aplausos do politicamente correto.
O tráfico de influência e o ambientalismo de papelão
A porosidade ética se exibe sem pudor nos gabinetes do Estado, remunerados em níveis de primeiro mundo e com contatos escusos com o próprio Estado.
O subsecretário de Meio Ambiente expõe as vantagens e virtudes técnicas de um milionário projeto imobiliário para o qual, magicamente, os Bañados de Carrasco são desafetados e eliminados das áreas protegidas, omitindo convenientemente que ele próprio havia atuado como assessor e representante legal do empreendedor privado envolvido.
O negócio particular se disfarça de progresso ecológico com timbre oficial.
A corporação médica e a leviandade com a vida
A degradação da justiça disciplinar brilha com crueza no âmbito da saúde: a redução da suspensão do exercício profissional imposta a uma anestesista condenada criminalmente por homicídio mediante acordo com a Promotoria, após atuar sob o efeito de substâncias, provocando a morte evitável de uma jovem médica, a pediatra Soledad Barrera.
As corporações se protegem nos bastidores, as sanções se diluem e o valor da vida humana fica subordinado aos equilíbrios políticos da ministra da Saúde.
A doutrinação e a transferência de culpas
Enquanto isso, nas salas de aula naturalizam-se as inclusões de conteúdos de doutrinação ideológica e sexual alheios à formação substantiva pretendida por aqueles que mal conservam o “poder familiar”.
Enquanto os ministros que deveriam ser responsáveis por suas ações e omissões peregrinam pelos comitês de base político-partidários para atribuir à herança da oposição a culpa pelo desastroso cumprimento do programa, que Valcorba declarou inviável.
Para depois balbuciar desculpas ensaiadas àquele que havia sido vilipendiado quando o escândalo transcende para a opinião pública.
Judicializam arbitrariamente a Justiça, utilizada como ferramenta de extermínio daqueles que pensam diferente.
O tecido institucional se desfaz porque foram banidas a responsabilidade individual e a decência republicana.
O aparato estatal funciona apenas como uma máquina de autojustificação, blindando o burocrata inepto, mal-intencionado ou corrupto para salvar o sistema político e deixando o cidadão desprotegido diante do abuso, enquanto, do topo, olha-se para o outro lado; e governa-se com a inação constantemente e inutilmente justificada como divisa.
Diante da evidência incontornável da decadência, da falta de rumo e da incapacidade absoluta de colocar ordem, ressoam as frases do presidente Yamandú Orsi para se justificar: “Aqui está faltando… aquilo que está faltando” e “são coisas que acontecem”.
Permissividade institucional
Impunidade burocrática
Responsabilidade republicana
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