Uma reflexão sobre o imediatismo político, a perda da liberdade econômica e o risco de importar modelos esgotados antes de criar a riqueza necessária para sustentá-los.
IMEDIATISMO — EUROPA PRESA E SEM SAÍDA
Um espelho no qual suas ex-colônias podem se olhar
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
A decadência da Europa se deve a múltiplas razões, mas poderia ser resumida no fato de que perdeu o rumo da liberdade eleitoral, presa, mais uma vez, a composições socializantes que impedem analisar as causas com a franqueza necessária.
Existe uma retroalimentação perversa: a escolha política de curto prazo acaba cristalizando debilidades estruturais que depois se tornam “inevitáveis”.
Sob uma perspectiva analítica, esse fenômeno de “decadência em espelho” entre a Europa e os países latinos europeizados pode ser decomposto sob a lógica da escolha deliberada e da armadilha estrutural:
A Escolha Política: O “Imediatismo” como Ideologia
A decadência costuma começar como uma série de decisões políticas que buscam o favor imediato do eleitor às custas da solvência futura.
Escolhe-se manter níveis de consumo público e subsídios que a produtividade real não consegue sustentar. Em vez de capitalizar a economia, melhorando infraestrutura ou tecnologia, redistribui-se um capital que está se esgotando.
Cria-se um sistema no qual é mais rentável eleitoralmente ser um “gestor de subsídios” ou um buscador de rendas estatais do que um produtor de riqueza.
Esta é uma escolha política de desenho: premia-se a lealdade e a dependência acima da competência.
A Consequência Inevitável: O “Salto no Vazio” do Modelo de Bem-Estar
É aqui que entra a parte técnica e demográfica.
Países adotaram a roupagem do Estado de Bem-Estar europeu, saúde universal, pensões generosas e educação estatal massiva, sem terem passado pela etapa de acumulação intensiva de capital que a Europa teve depois da Segunda Guerra Mundial.
A armadilha da maturidade prematura, copiada aqui na América por países originalmente europeizados, ocorre com países que “envelheceram antes de enriquecer”.
Enquanto a Europa construiu seu bem-estar sobre uma base industrial sólida, o modelo latino europeizado o construiu sobre a exportação de matérias-primas ou o endividamento.
Quando o ciclo das matérias-primas cai ou a dívida se torna impagável, o modelo se transforma em uma carga “inevitável”.
A rigidez institucional do modelo impede sua mudança. Uma vez concedidos direitos sociais financiados pelo Estado, retirá-los ou reformá-los torna-se politicamente explosivo.
Isso cria uma inércia na qual o país segue um rumo de decadência simplesmente porque o custo político da mudança é alto demais.
A Convergência na “Perda de Lucidez”
O mais preocupante nessa semelhança é a erosão do que se pode chamar de âncora cultural.
Quando o sistema educacional, as Artes Liberais que você menciona com frequência, deixa de formar cidadãos críticos e com capacidade de comando sobre si mesmos, a sociedade perde a faculdade de diagnosticar sua própria decadência.
Acaba-se aceitando a degradação dos serviços públicos, a insegurança e a inflação como se fossem fenômenos meteorológicos, quando na realidade são o resultado de ter abandonado a lógica da responsabilidade individual e da liberdade econômica.
A decadência é uma escolha política inicial, preferir o presente ao futuro, que, com o tempo, transforma-se em uma consequência estrutural, um sistema pesado demais para a base que o sustenta.
Se o modelo de bem-estar europeu está falhando em seu próprio berço por causa da burocracia e da falta de energia barata, que margem de manobra resta aos países do Cone Sul para evitar esse mesmo destino sem uma mudança radical em sua filosofia de gestão pública?
Devemos Advertir Aonde Conduzem Essas Políticas e Mudar Radicalmente o Rumo
Alcançar essa mudança de rumo exige, antes de tudo, um exercício de honestidade intelectual e a coragem de romper com o consenso social-democrata que dominou o discurso durante décadas.
Se a trajetória atual conduz à fragmentação social e à insolvência econômica, o novo rumo deve estar ancorado em princípios que devolvam agência ao indivíduo e eficiência ao sistema.
Do “Estado de Bem-Estar” ao “Estado de Direito e Liberdade”
O erro de base foi acreditar que o Estado pode ser o provedor universal da felicidade.
A mudança radical implica uma abertura ao comércio e à desregulamentação burocrática:
Eliminar a “teia normativa”. O Estado deve deixar de ser um obstáculo para o produtor e converter-se no garantidor das regras do jogo.
Reformar o gasto. Passar de um orçamento baseado na inércia, gastar porque se gastou no ano anterior, para uma lógica de orçamento base zero, na qual cada peso extraído do contribuinte deva ser justificado por sua utilidade direta e não pelo clientelismo.
A Batalha Cultural e Educacional: A Âncora da Lucidez
Não há mudança de rumo econômico sem uma regeneração dos valores.
A decadência é, em última instância, uma renúncia espiritual.
Diante da educação “técnico-burocrática” que forma empregados do sistema, é necessário resgatar o Trivium e o Quadrivium. Uma sociedade que sabe pensar, raciocinar e refutar é imune à propaganda da “cultura do subsídio”.
Responsabilidade individual. Substituir o relato do “direito a receber” pelo da “responsabilidade de criar”.
O legado para a posteridade deve ser um sistema no qual o mérito e a virtude voltem a ser os motores da ascensão social.
O Risco da Inação
Se não se advertir com clareza que o caminho europeu dos últimos anos é um espelho do que não se deve fazer, os países latinos europeizados acabarão importando não apenas o modelo, mas também o colapso.
A advertência deve ser crua: o modelo de bem-estar sem capital é simplesmente um consumo acelerado da herança de nossos netos.
A sociedade civil está disposta a aceitar o remédio da liberdade, que é amargo no início, mas saudável no longo prazo, ou preferirá continuar sob o efeito narcótico dos sedativos do Estado até que o sistema se rompa definitivamente?
O maior perigo para uma nação não é a invasão estrangeira, mas a castração da individualidade por uma maquinaria administrativa hipertrofiada.
Quando o Estado pretende dirigir cada transação e regular cada iniciativa, transforma os cidadãos em infantes perpétuos.
Uma sociedade que sacrifica a liberdade econômica por uma segurança ilusória logo descobre que perdeu ambas.
A burocracia europeia, hoje replicada nas margens do Prata, nada mais é do que uma “tirania da maioria” institucionalizada que sufoca o gênio humano em favor de uma mediocridade uniforme e subsidiada.
Europa como advertência.
Bem-estar sem capital.
Liberdade contra dependência.
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