Family preparing a barbecue with an unlit grill symbolizing chronic fiscal deficits.

O Mito do Churrasco sem Fogo: Quando o Déficit Cobra a Conta

Transformar o déficit fiscal em um detalhe político pode parecer socialmente virtuoso, mas seus custos acabam recaindo sobre investimento, crédito, inflação e crescimento econômico.

O Mito do Churrasco sem Fogo: Quando a Contabilidade se Torna um Ato de Fé

A economia uruguaia, esse pequeno experimento social em que tentamos desafiar as leis da gravidade fiscal com a mesma fé de um torcedor no último minuto dos acréscimos, de tempos em tempos nos presenteia com verdadeiras joias da retórica política.
A recente posição do ex-deputado da Frente Ampla e atual senador Leonardo Delgado, que sugere com um ar quase messiânico que o déficit fiscal é apenas um pequeno inconveniente diante da nobreza das prioridades sociais, não representa nenhuma novidade.
É apenas o déjà vu mais persistente do nosso ecossistema político.
É a eterna disputa entre o contador que nos lembra que todo cartão de crédito possui um limite e o político que nos convence de que, se gastarmos com amor suficiente, o banco acabará apagando a dívida.
A Estética do Gasto e a Aritmética do Desastre
Se alguém colocar os óculos da frieza acadêmica — aqueles que Ignacio Munyo costuma polir pacientemente —, a análise técnica é tão entediante quanto irrefutável: déficit fiscal não é opinião; é uma simples subtração.
E quando o resultado dessa conta permanece cronicamente negativo, a realidade começa a apresentar a fatura, ainda que ela nunca apareça nos cartazes das manifestações.
O argumento de Delgado é sedutor justamente porque reivindica superioridade moral.
Afinal, quem não gostaria de ser aquele que coloca “as pessoas em primeiro lugar”?
O problema é que justamente essas pessoas são as primeiras a ficar desamparadas quando a estabilidade macroeconômica começa a ruir.
Como a experiência demonstra repetidamente, quando o Estado decide que o déficit fiscal é apenas um detalhe, os mercados financeiros frequentemente concluem que o país se tornou um risco maior.
E um país considerado mais arriscado inevitavelmente paga juros mais elevados por sua dívida pública.
É exatamente nesse momento que o bom senso começaria a rir das arquibancadas.
Imagine a cena: financiamos o churrasco de hoje com o salário dos nossos bisnetos e ainda nos sentimos verdadeiros filantropos.
Na realidade, nessa orquestra, o déficit fiscal é o maestro que, quando entra em pânico, apaga as luzes no meio do concerto.
Quando o Estado, preso a um déficit permanente, sai ao mercado para financiar suas promessas, passa a disputar exatamente o mesmo crédito de que necessitam pequenas empresas, startups de tecnologia e comerciantes de bairro.
Como o Estado se transforma no maior tomador de recursos da economia, acaba pressionando as taxas de juros para cima.
O resultado é um paradoxo digno de um conto ideológico: pretendemos ajudar a população por meio do gasto público, mas acabamos tornando mais caro o crédito para que essa mesma população possa empreender, investir ou comprar uma casa.
É como tentar apagar um incêndio jogando gasolina apenas porque a embalagem diz “solução líquida”.
O grande debate que deveríamos enfrentar é se a política social deve continuar sendo entendida como um gasto de consumo imediato ou se deve passar a ser vista como um investimento capaz de gerar retorno.
Se o déficit fiscal continuar crescendo de forma permanente, o Estado acabará ficando sem “munição” financeira justamente para enfrentar a pobreza que suas próprias políticas ajudam a multiplicar.
Um déficit fiscal controlado não é uma obsessão de economistas de Harvard.
É uma espécie de seguro político que permite preservar recursos públicos para aqueles que realmente deles necessitam.
É a diferença entre um Estado capaz de responder à pobreza endêmica, a uma pandemia ou a uma grande seca e um Estado que precisa pedir autorização ao FMI para comprar analgésicos para aliviar a “dor” dos políticos diante da pobreza que ajudaram a produzir.
A retórica segundo a qual equilibrar as contas públicas seria apenas um exercício frio praticado por economistas liberais insensíveis ignora uma realidade elementar: os números representam pessoas.
Um déficit permanente acaba se transformando em uma escola sem aquecimento ou alimentação adequada, em um hospital sem os insumos médicos necessários ou em uma ponte que jamais será construída para escoar a produção nacional porque os recursos desapareceram pagando juros de uma dívida criada pelo imediatismo político.
O verdadeiro progressismo — se essa expressão ainda conservar algum significado — deveria buscar a máxima eficiência do gasto público, e não abrir irresponsavelmente a torneira do déficit.
Governar com responsabilidade fiscal não significa cortar direitos.
Significa preservar o valor real desses direitos ao longo do tempo.
Porque aquilo que hoje parece um direito garantido transforma-se amanhã em uma promessa descumprida quando deixam de existir os recursos necessários para sustentá-lo.
A realidade — essa força inconveniente que insiste em não obedecer aos desejos da política — tem o curioso hábito de permanecer teimosa.
Ela não presta atenção aos discursos.
Não se interessa pelas pesquisas de opinião.
Não distingue esquerda de direita.
Quando o déficit fiscal se torna crônico, simplesmente corrói a estrutura que sustenta a convivência social.
O senador Delgado e muitos outros vendedores utópicos de ilusões deveriam compreender que não existe nada mais social do que uma economia sólida e organizada.
A ironia final é que, ao desprezar a importância do equilíbrio fiscal em nome das prioridades sociais, acabam construindo o caminho mais curto para a própria instabilidade social que produz mais pobreza.
Como dizia um velho estadista, o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções e de orçamentos sem financiamento.
No fim das contas, governar um país não é um ato de magia.
É um exercício permanente de equilíbrio.
E, por mais que a política tente convencer seus eleitores de que o churrasco não custa nada, mais cedo ou mais tarde alguém terá de pagar a conta.
É lamentável que, por nos recusarmos a encarar os números, acabemos todos alimentando-nos apenas da fumaça do churrasco.

Déficit fiscal
Responsabilidade fiscal
Inflação e crescimento

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