O crescimento da dívida pública e a expansão do gasto estatal levantam dúvidas estruturais sobre o futuro econômico do país.
– Dependência estrutural do endividamento público
– Rigidez do gasto estatal e consenso estatista
– Recuperar a capacidade de capitalização privada
Romper a Inércia Decadente
Devolver aos seus legítimos donos o capital confiscado pelo Estado
O funcionário público de confiança política mais importante do Uruguai não é o presidente da República, nem sequer o ministro da Economia. É apenas um subordinado.
Entretanto, esse funcionário é tão essencial que sobrevive às mudanças ideológicas.
Esse raro privilégio permite que ele permaneça acima das rearrumações políticas.
O conhecimento específico e indispensável desse economista consiste em vender o país todos os anos como um devedor confiável, aumentando continuamente a hipoteca nacional.
Todos os fins de janeiro, ao terminar suas férias, o diretor da Unidade de Gestão da Dívida enfrenta o sistema financeiro nacional e internacional para obter empréstimos de longo prazo de aproximadamente seis bilhões de dólares, pagando apenas parte dos juros.
Essa realidade surpreendente, desconhecida pela grande maioria dos uruguaios, não tem como objetivo melhorar a educação, promover a produção ou implementar tecnologia.
Todo esse dinheiro é utilizado simplesmente para financiar o déficit orçamentário público, funcionando na prática como mais um imposto oculto imposto à sociedade, sobreposto aos impostos explícitos já cobrados pelos representantes políticos, tão inconstitucional quanto a inflação.
O Uruguai registra atualmente uma inflação em torno de 3,5%, algo que preocupa o governo por ser considerada baixa.
O que aparentemente não o preocupa — e deveria preocupar — é que a dívida pública bruta consolidada está próxima de setenta a setenta e cinco por cento do PIB.
O limite considerado prudente de endividamento seria cerca de sessenta e cinco por cento, segundo aqueles que aconselham governos a se endividarem, permitindo ao sistema financeiro extrair recursos do setor produtivo privado sem esforço.
Essa situação pressiona cada vez mais o responsável pela gestão da dívida.
Mesmo assim ele apenas executa as ordens de uma casta política amplamente indiferente aos sinais de alerta de possível default.
O Ponto de Ruptura para o Futuro
Para sair desse declínio, a lógica sugerida por Ramón Díaz indicaria que o desafio não consiste em administrar melhor o sistema existente, mas em mudar a direção do fluxo de capital.
A pergunta central é se a sociedade uruguaia está disposta a aceitar a “intempérie” de uma liberdade econômica real para recuperar o dinamismo perdido por volta de 1870.
Ou se o medo de perder a proteção estatal — cada vez mais insuficiente — continuará empurrando o país para uma estagnação econômica e social mais profunda.
A Inoperância Moderna e o Desafio de uma Mudança de Época
A rigidez do sistema político atual, impulsionado por eleitores que exigem promessas incompatíveis, impede o retorno ao crescimento genuíno.
O Uruguai contemporâneo parece preso em um consenso estatista que administra a decadência em vez de revertê-la.
A eficiência pública foi substituída por uma inoperância estrutural que não oferece alternativa real ao chamado “custo Uruguai”, que pesa sobre toda atividade produtiva.
A rigidez do gasto público cria, na prática, um “direito adquirido” intocável de ampliá-lo indefinidamente, financiado por uma pressão fiscal que sufoca o setor privado.
Essa âncora impede que o país aproveite as novas revoluções tecnológicas — biotecnologia e serviços globais — com a mesma agilidade que demonstrou no século XIX com a exportação de lã.
A mudança de paradigma necessária implica reconhecer que a solução não está em administrar melhor o Estado atual, mas em mudar de direção.
Isso significa devolver à sociedade civil a capacidade de poupar e decidir.
Significa recuperar a responsabilidade individual na construção do próprio destino econômico, exceto quando isso for realmente impossível.
O desafio consiste em romper a dependência emocional e econômica do subsídio estatal que gerou necessidades artificiais desconectadas da realidade fiscal.
Essa mudança de época exige reconhecer que o modelo de bem-estar baseado na captura de renda esgotou seu combustível.
Recuperar o espírito de 1856 implica compreender que o Estado deve deixar de ser o centro da vida econômica individual e voltar a ser o garantidor do marco institucional no qual o setor privado possa novamente se capitalizar.
Romper essa inércia sem a possibilidade de reiniciar o sistema do zero é o desafio mais complexo da economia política moderna.
Quando o Estado se torna o principal cliente, empregador e regulador, a transição não pode ser abrupta sem arriscar o colapso do tecido social.
Mas a lentidão atual equivale a uma sentença econômica lenta.
Em um mundo onde a revolução tecnológica e a competição global avançam em velocidade quase quântica, o Uruguai precisa de uma estratégia de descompressão seletiva capaz de liberar a energia produtiva atualmente aprisionada no sistema.
Esse caminho será analisado em seguida.
