Como a expansão burocrática distorce os sinais do mercado de trabalho e dificulta a geração sustentável de empregos.
O SALÁRIO JUSTO
A Rebelião das Restrições:
O Setor Privado diante da Falsificação da Realidade Econômica
Por Dr. Nelson Jorge Mosco Castellano
O debate sobre o “salário justo” costuma ser tratado a partir de um voluntarismo estéril que ignora as leis da escassez.
Entretanto, quando se analisa a dinâmica atual do mercado de trabalho, a verdadeira discussão não é moral, mas sistêmica: a assimetria insustentável entre um setor regulado pela realidade e um setor político protegido das consequências dos próprios erros.
Hoje, a estagnação do setor privado não é um fenômeno casual, mas o resultado direto de um modelo que transfere coercitivamente o custo das inconsistências estatais para aqueles que efetivamente geram empregos.
O Núcleo do Problema: A Tese de Ludwig von Mises
Para compreender a origem dessa distorção, é indispensável recorrer ao economista austríaco Ludwig von Mises e à sua obra fundamental Burocracia (1944).
Mises demonstrou que a gestão pública e a privada operam sob lógicas irreconciliáveis, definindo dois conceitos que explicam a atual crise do mercado de trabalho.
Gestão pelo Lucro (Setor Privado): o empresário privado está submetido ao cálculo econômico, aos lucros e prejuízos e à soberania do consumidor.
Os salários não decorrem da benevolência, mas da produtividade marginal e de severas restrições orçamentárias. Quando um empresário fixa salários acima do que o mercado sustenta ou administra mal seus recursos, o próprio mercado elimina esse empreendimento.
O setor privado paga pelos próprios erros com seu próprio patrimônio.
Gestão Burocrática (Setor Político): financiando-se por meio da arrecadação compulsória de impostos, o Estado carece, por definição, da disciplina do cálculo econômico.
Como não depende da aceitação voluntária dos consumidores, os salários políticos e das empresas estatais tornam-se preços definidos administrativamente.
O burocrata vive sob a ilusão de que os recursos são ilimitados e de que apenas as pressões corporativas estabelecem os limites, desconhecendo a disciplina dos balanços e o risco da falência.
O Efeito de Expulsão: Competindo contra uma Caixa-Preta Fiscal
A desconexão burocrática apontada por Mises provoca profunda distorção no mercado de trabalho contemporâneo, dificultando continuamente a criação de empregos genuínos capazes de remunerar com salários sustentáveis.
O empreendedor que investe e assume riscos precisa competir por talentos diante de sinais salariais artificialmente distorcidos.
Complementando Mises, Friedrich Hayek advertiu que os salários funcionam como sinais de informação. Quando o Estado infla artificialmente os salários, destrói esse sistema de informações e desloca capital humano para áreas burocráticas improdutivas, porém altamente protegidas.
O resultado é a asfixia direta do setor produtivo.
O empresário, obrigado a preservar rentabilidade mínima para sobreviver e continuar investindo, passa a competir contra um empregador que não enfrenta restrições financeiras.
A consequência é a redução dos investimentos e o enfraquecimento gradual do tecido empresarial privado.
Monopólios Artificiais e a Socialização das Perdas
Esse círculo vicioso consolida-se por meio de monopólios coercitivos e da definição política de preços e tarifas.
É justamente aqui que a advertência de Mises sobre a ausência de responsabilidade revela toda a sua atualidade.
Quando estruturas estatais se tornam ineficientes ou excessivamente caras, recorrem a mecanismos que reduzem continuamente a competitividade da economia.
Os preços políticos transformam consumidores e produtores privados em reféns de estruturas monopolísticas protegidas pelo poder estatal.
Quando organismos públicos geram prejuízos por decisões equivocadas, esses custos jamais recaem sobre os responsáveis.
São transferidos para toda a sociedade mediante maior carga tributária, gasto público ou endividamento.
O empreendedor acaba financiando não apenas impostos elevados e tarifas públicas, mas também folhas salariais estatais desconectadas da realidade produtiva.
Um Modelo no Limite
A estagnação do setor privado representa um limite econômico concreto.
Como ensinou Mises, nenhuma sociedade consegue sustentar indefinidamente uma estrutura que distribui riqueza segundo uma lógica artificial de abundância enquanto sufoca, com impostos e regulações, o único setor capaz de gerar riqueza real.
O retorno ao crescimento sustentável e à criação de empregos de qualidade exige reconhecer que o único salário duradouro é aquele validado pela cooperação voluntária e pela livre concorrência.
Continuar forçando o sistema fiscal para subsidiar a ineficiência política às custas do setor produtivo compromete os investimentos futuros e a liberdade individual.
O endividamento decorrente desse processo acaba recaindo sobre toda a sociedade e precisa ser revertido com urgência.
A nova realidade tecnológica demonstra que o setor privado já incorpora automação e inteligência artificial para sobreviver à crescente pressão estatal.
Se o Estado não acompanhar essa transformação, todos sofreremos suas consequências.
Ignorando essa realidade, corre o risco de destruir as próprias condições necessárias para que o setor privado continue gerando salários verdadeiramente justos.
Salário justo
Setor privado
Sinais de mercado
Continuar lendo em Economia e Poder.
Apoyá la continuidad de Perspectiva Liberal
Perspectiva Liberal es un espacio editorial independiente. Si valorás este trabajo y querés colaborar con su continuidad, podés hacerlo mediante un aporte voluntario a nuestra cuenta Prex.
Cuenta Prex: 13440

