A inteligência artificial pode permitir que comunidades africanas saltem etapas institucionais e avancem diretamente para uma aprendizagem personalizada e para a soberania cognitiva.
E se a África fosse a grande beneficiária da inteligência artificial?
Durante décadas, demos por certo que as grandes revoluções tecnológicas beneficiariam primeiro os países mais desenvolvidos.
Parecia inevitável.
Mais universidades, mais pesquisadores, mais recursos e melhores sistemas educacionais pareciam garantir essa vantagem.
No entanto, a inteligência artificial poderia romper essa lógica.
Alguns anos antes de 2000, tive a oportunidade de viajar para a China.
Lembro-me de uma imagem que me surpreendeu profundamente: milhares de pessoas circulavam de bicicleta falando ao telefone celular.
No Uruguai, naquela época, os celulares ainda eram uma raridade.
Perguntei por que aquilo acontecia.
A resposta foi tão simples quanto reveladora.
Muitas daquelas pessoas nunca haviam tido um telefone fixo.
Não estavam substituindo uma tecnologia por outra.
Simplesmente haviam saltado uma etapa inteira.
Aquela experiência me fez compreender que, quando uma sociedade não carrega grandes investimentos, estruturas ou hábitos consolidados, pode adotar com maior rapidez uma tecnologia disruptiva.
Hoje me pergunto se algo semelhante pode acontecer com a educação.
Boa parte do Ocidente construiu, durante mais de um século, enormes sistemas educacionais.
Universidades, ministérios, sindicatos, institutos de formação docente, planos oficiais, regulamentos e burocracias.
Essas instituições cumpriram uma função decisiva.
Mas sua própria solidez pode se transformar em rigidez quando a transformação exige modificar métodos, funções e interesses estabelecidos.
Mudar um programa pode levar anos.
Incorporar uma metodologia diferente costuma exigir negociações intermináveis.
Enquanto isso, a inteligência artificial evolui praticamente todos os meses.
A África não constitui uma realidade uniforme.
No entanto, em vastas regiões do continente, os sistemas educacionais nunca alcançaram o desenvolvimento da Europa ou da América do Norte.
Tradicionalmente, isso foi visto como uma enorme desvantagem.
Mas talvez a inteligência artificial transforme parte dessa fraqueza em uma oportunidade histórica.
Um estudante com um telefone inteligente e conexão à Internet pode dispor de um tutor personalizado vinte e quatro horas por dia.
Pode aprender em seu próprio ritmo, fazer perguntas ilimitadas, receber explicações adaptadas ao seu nível e estudar em seu idioma.
Isso não acontecerá automaticamente.
Serão necessários energia, conectividade, dispositivos e pessoas capazes de orientar o processo.
Mas, uma vez disponíveis essas condições mínimas, uma comunidade poderia passar diretamente de uma educação insuficiente para uma aprendizagem individualizada, sem percorrer todas as etapas institucionais dos países desenvolvidos.
Não se trata de substituir o professor.
Trata-se de modificar radicalmente sua função.
Até agora, uma de suas principais tarefas consistia em transmitir informação e explicar conteúdos.
Era lógico.
A informação era escassa, e o professor era um de seus principais mediadores.
Hoje essa escassez começa a desaparecer.
Pela primeira vez na história, praticamente qualquer estudante pode ter acesso imediato a uma explicação sobre quase qualquer tema.
Isso obriga a formular uma pergunta muito mais profunda.
Se a inteligência artificial pode transmitir informação, qual será a verdadeira missão do professor?
Acredito que a resposta não consiste em competir com ela, mas em utilizá-la para fazer aquilo que a educação nunca conseguiu realizar de maneira sistemática.
Ensinar a pensar.
O professor do futuro não preparará apenas aulas.
Também desenhará a conduta pedagógica dos assistentes inteligentes.
Poderá configurá-los para que não entreguem imediatamente a resposta, mas formulem perguntas, peçam fundamentos, proponham alternativas, apontem contradições e obriguem o estudante a revisar suas conclusões.
A inteligência artificial deixará então de ser uma máquina que responde para se transformar em uma ferramenta que ajuda a raciocinar.
E o professor deixará de ser principalmente um transmissor de informação para se transformar em um formador de inteligências.
Sua missão será desenvolver a atenção, a observação, a comparação, o juízo, a reflexão e a autonomia intelectual de cada estudante.
Também deverá ajudá-lo a reconhecer os pensamentos que intervêm em seu raciocínio, distinguir os que o desviam e aprender a conduzir conscientemente sua própria atividade mental.
Em outras palavras, ensinar o uso consciente das faculdades com as quais todo conhecimento é construído.
Talvez essa seja a verdadeira revolução educacional.
Durante séculos, avaliamos principalmente quanto um aluno sabia.
Amanhã poderemos acompanhar e avaliar como ele pensa.
O que observa.
O que compara.
Quais fundamentos exige.
Como descobre um erro.
Como retifica e constrói um juízo próprio.
Essa mudança tem um nome.
Soberania cognitiva.
A capacidade de governar conscientemente a própria inteligência, utilizar a inteligência artificial sem delegar a ela o critério e conservar a autonomia para compreender, julgar e decidir.
Se essa hipótese estiver correta, a África poderá ser um dos primeiros cenários em que essa transformação se torne visível.
Mas a verdadeira revolução não ocorrerá em um continente determinado.
Ocorrerá na mente humana.
E talvez, pela primeira vez na história, a missão principal da educação deixe de ser transmitir conhecimentos para se transformar em formar pessoas capazes de pensar com liberdade, critério e responsabilidade, acompanhadas por uma inteligência artificial, mas donas de sua própria inteligência.
-Soberania cognitiva
Aprendizagem personalizada
Salto tecnológico africano
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